Passou um bocado de tempo e ainda me comove o fato de que, às vezes, as estatísticas saem do noticiário da TV para se sentarem no sofá, bem do nosso lado. As perguntas são as mesmas de três anos atrás. O que fazer quando números antes abstratos deixam o campo da matemática que relaciona fatos e dados para bater à porta da nossa casa? Como lidar com o fato de que, às vezes, a estatística somos nós?
Dar de cara com a morte dos nossos quase nunca é fácil, e se torna ainda mais difícil quando eles são arrancados de nós. Se o arrancamento tiver as digitais da violência, então, a saudade, a dor e a revolta nos visitam constantemente, juntas e misturadas.
É disso que trata “O Avesso da Pele”, o livro de Jeferson Tenório; de afetos, ausências, referências, identidade, pertencimento, exclusão, injustiça, preconceito, perdas, os modos de lidar com eles e as tragédias que ainda virão.
O romance censurado em escolas do Sul nos mostra como o racismo atravessa e define a vida de uma pessoa preta. Em nome da moral e do imagina-só-o-impacto-de-palavrões-e-cenas-de-sexo-nos-jovens-leitores, proíbe-se uma história em que a grande perversão está implícita, onde a pior violência não é a mais evidente.
Ao contrário. A perversão e a violência de “O Avesso da Pele” são sutis e, provavelmente por isso, ainda mais impactantes. Uma existência comum gratuitamente interrompida pela polícia. Encontros de uma vida inteira suspensos pelo racismo. Futuros bloqueados por uma estrutura herdada da escravidão, abolida no papel, mas ainda hoje agarrada no olhar de pessoas e instituições, em pequenas agressões diárias, na mira do Estado.
É necessário preservar o avesso, preservar aquilo que ninguém vê, diz o personagem, a certa altura da história, citando um ensinamento do pai. Porque - ele prossegue - não demora muito e a cor da pele atravessa o corpo e determina o jeito de estar no mundo. E, por mais que atitudes e modos de viver estejam sob este domínio, entre músculos, órgãos e veias existe um lugar isolado e único em que estão os afetos.
O livro de Jeferson Tenório parece nos dizer o tempo todo que são eles, os afetos, que devem ser preservados. Censurar a obra diz mais sobre os censores do que sobre a história.
Apesar da violência do mundo de fora e da dureza imposta pelo racismo, é preciso guardar e fortalecer os afetos isolados entre músculos, órgãos e veias, no avesso da pele. Quem tem medo deste afeto e por quais razões?