Prezado Vinicius Júnior,
Dizer que você tem sido gigante é chover numa imensa poça de molhado. Seus feitos são evidentes até pra mim, que sei pouquíssimo de futebol. Os dribles que você dança, os gols que coleciona, a força com que se defende dos equivocados e o futuro que desenha com os pés confirmam: estamos mesmo diante de um craque.
É um crime, em muitos sentidos, que o seu bailado não seja suficiente para evitar a impiedosa ação do racismo sobre você.
Para a nossa sorte, Vini Jr., você é atrevido. Um atrevimento que significa velocidade, habilidade e capacidade de driblar adversários como quem brinca, sorri, samba à brasileira. Um atrevimento que se traveste em seguir jogando bonito apesar das ofensas que parte dos torcedores destina a você.
Você ousou ser grande sendo preto, num país formado sobre as bases do colonialismo, do autoritarismo e da escravidão. Ousou dizer, tendo apenas 20 e poucos anos, que passou da hora de um país como a Espanha rever o passado explorador e reorganizar seu lugar na História da civilização contemporânea.
Esse passado talvez explique o racismo como prática recorrente, estruturada e naturalizada no país em que você escolheu jogar, Vini. Mas não justifica a falta de providências da Justiça e do futebol contra os criminosos sentados na arquibancada. É o que esperamos e esperançamos: justiça e providências, mudanças e punições.
Você esbanja coragem e fala por muitos. Tem a chance de ser ouvido numa escala que a maioria dos seus não tem, não teve nem teria. A vulnerabilidade que você revelou chorando na entrevista da TV, dizendo que sente cada vez menos vontade de jogar, mas que vai seguir lutando, fortalece a admiração que você inspira em muitos de nós.
Houve no Espírito Santo, alguns anos atrás, um artista chamado Sérgio Sampaio. Numa de suas canções, ele cantava:
Como é maiúsculo
O artista e a sua canção
Relação entre Deus e o músculo
Que faz poderosa a sua criação
Pensando bem
É um mistério
Como é misterioso o coração
Você é um artista, Vini Jr., um artista maiúsculo como Sampaio era. Não deve ser à toa que você carrega a paixão no nome - Vinicius José Paixão de Oliveira Júnior. E, mesmo que pareça, você não está sozinho. Pretos, como também os brancos que compreendemos nosso privilégio e nosso papel na batalha contra o racismo, estamos com você, apesar da solidão que imagino você sinta quando recebe ofensas no campo.
Estamos com você, porque Angela Davis tem toda razão. Não basta não ser racista. É preciso ser antirracista.