Das piores coisas que podem acontecer a um morto depois da própria morte deve ser ter os desejos finais desrespeitados. Gabo não queria que nos víssemos em agosto. A vontade expressa a respeito de seu último trabalho deixa isso bem evidente:
- Este livro não presta. Tem que ser destruído.
Gabo é Gabriel García Márquez, o escritor colombiano que ocupa toda uma prateleira da minha modesta estante de livros; a mente por trás da espera de Florentino Ariza por Fermina Daza durante 51 anos, 9 meses, 4 dias e respectivas noites; o sujeito que nos brindou com “Cem Anos de Solidão”, seu inesquecível e inesgotável primeiro parágrafo e a saga da estirpe solitária que não teve uma segunda chance sobre a terra.
O livro que segundo Gabo não presta é “Em Agosto nos Vemos”, escrito quando o autor já se perdia nos abismos da memória e lançado agora, dez anos depois de sua morte.
“O processo foi uma batalha entre o perfeccionismo do artista e o declínio de suas faculdades mentais. Num ato de traição, decidimos colocar o prazer de seus leitores acima de todas as outras considerações. Se os leitores celebrarem o livro, é possível que Gabo nos perdoe. É nisso que confiamos”, escrevem os filhos na abertura da obra, numa tentativa de justificar a publicação contrária à vontade do escritor.
Confesso que fiquei na dúvida: comprar ou não comprar “Em Agosto nos Vemos”?
Afinal, comprá-lo significava desrespeitar o desejo de um dos meus autores favoritos, companheiro de tempos, sentimentos e caminhos variados, desde as minhas primeiras leituras da vida adulta; um avô distante com seu modo errante e nostálgico; um professor remoto na arte de lutar fisicamente com cada palavra - e é quase sempre a palavra que vence.
Por outro lado, não comprar era perder um Gabo inédito em seus fantasmas e superstições, um Gabo que, mesmo menor, costumava ser gigante.
Comprei, com a mesma esperança de que falam os filhos na abertura do livro. Mas, logo nas primeiras páginas, entendi os incômodos, as incertezas e o desgosto do autor com a obra. “Em Agosto nos Vemos” parece um rascunho, um esboço, um texto bruto à espera da carpintaria que Gabriel García Márquez nos acostumou a esperar dele.
Sua leitura reacende a saudade dos grandes momentos de Gabo e nos lembra que, em homenagem aos mortos, o melhor que temos a fazer é respeitar seus últimos desejos.