Em que momento a brutalidade derruba a humanidade de forma definitiva? Quando, de tanto presenciar o horror, você passa a vê-lo com indiferença? O que faz o olho perder a ternura e a capacidade de se emocionar? Qual o ponto de virada da comoção para a displicência? Como perdemos a sensibilidade diante do caos, o equilíbrio diante dos conflitos, o bom senso diante das diferenças?
“Guerra Civil”, que vi outro dia no cinema, é um filme de guerra, embalado pelo cheiro repetido de sangue, pela angustiante sinfonia dos bombardeios, pelo ensurdecedor silêncio da morte.
É, mais ainda, um filme sobre a sutileza das fronteiras, o propósito e sua falta, o absurdo de certos combates, o duelo entre loucura e lucidez, a transformação do afeto em desdém, a hora em que simplesmente fim.
Na história, os Estados Unidos estão em guerra desde que tropas separatistas lideradas por exércitos da Califórnia e do Texas se rebelaram contra o presidente. O líder norte-americano se isolou em Washington depois de um golpe para esticar seu mandato, dissolveu o FBI e ordenou ataques contra cidadãos comuns.
Neste cenário, uma equipe formada por um repórter alucinado por entrevistar o presidente, um jornalista veterano cujo corpo não dispõe mais de agilidade, mas o raciocínio vale ouro, uma fotógrafa consagrada exausta do horror e uma colega iniciante viajam para registrar o conflito.
Enquanto a guerra corre, os quatro lidam com as próprias batalhas, internas e intransferíveis, cada um a seu modo.
Assistimos às transformações - do medo ao gosto de estar na guerra, do cuidado à frieza, do riso ao luto, da descrença à explosão, do cansaço pregado nos olhos a um último e heroico ato. Vemos o jeito como cada um reage ao que testemunha, e de alguma forma testemunhamos também.
Em uma das cenas, um militar separatista mata dois homens apenas por não serem nascidos nos Estados Unidos. Em outra, dois lados de um conflito trocam tiros num campo de batalha improvisado sem que ninguém saiba exatamente o motivo. “Eles atiraram em nós, estamos nos defendendo”, diz o soldado, sem paciência para muitas explicações.
“Guerra Civil”, alguém disse, com toda razão, é um filme de guerra antiguerra, um filme político sem partido muito evidente. Seu recado parece ser sobre os riscos do extremismo e a irracionalidade da guerra, mas também sobre a rapidez com que extremos nos distanciam da razão e às vezes de nós mesmos.