Existe uma cena bastante comum nos eventos de sustentabilidade brasileiros: pesquisadores apresentando descobertas importantes a uma plateia majoritariamente composta por outros pesquisadores.
O conhecimento circula dentro de um circuito fechado, bem-intencionado, mas incapaz de cruzar fronteiras nas políticas públicas, nas decisões empresariais, nas práticas territoriais. A Jornada Científica da Conferência Nacional Sustentabilidade Brasil 2026, que acontece nos dias 25 e 26 de junho na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em Vitória, foi pensada para romper exatamente com essa lógica.
A proposta não é modesta. A Conferência Sustentabilidade Brasil (CSB), uma realização do Instituto Sustentabilidade Brasil (ISB), existe para furar bolhas, conectar academia, setor privado, poder público, movimentos sociais e sociedade civil em torno de uma agenda comum.
E a Jornada carrega esse mesmo DNA. Ela é aberta não apenas para pesquisadores e estudantes de pós-graduação, mas para profissionais, consultores e técnicos que acumularam conhecimento prático no campo. Quem passou anos implementando projetos de transição energética em comunidades rurais, mapeando erosão costeira ou estruturando mecanismos de pagamento por serviços ambientais tem algo fundamental a dizer. Esses saberes precisam ser documentados, debatidos e publicados com o mesmo rigor que se exige de qualquer artigo científico.
Os quatro eixos temáticos desta edição — cidades e costa resiliente, transição energética justa, biomas como infraestrutura climática, e financiamento e carbono — foram escolhidos porque representam os pontos de urgência e alta oportunidade da agenda climática brasileira. Não por acaso, são também os eixos onde a distância entre o que a ciência sabe e o que a política faz é mais custosa.
Mas talvez o aspecto mais relevante da Jornada deste ano não esteja nos temas, mas entre os que serão convidados a falar sobre eles. Das 24 vagas disponíveis, 7 são afirmativas: 5 reservadas para mulheres pretas, pardas, quilombolas ou indígenas, e 2 para pessoas com deficiência.
Os números que justificam essa decisão são perturbadores. Segundo o Gemaa/UERJ, mulheres pretas, pardas e indígenas representam apenas 2,5% dos docentes em programas de pós-graduação nas áreas de ciências exatas, da terra e biológicas. Dados do CNPq mostram que somente 7% das pesquisadoras com bolsa são negras. No nível mais alto das bolsas de produtividade, em 2023, não havia nenhuma mulher preta ou indígena.
Não se trata de concessão. As vagas afirmativas passam pelo mesmo processo de avaliação cega e pelos mesmos critérios científicos que as demais. O que muda é que a conferência reconhece ativamente que abrir uma inscrição não é o mesmo que abrir uma porta, e que produção científica mais diversa é, em última instância, ciência mais útil. E isso vale também para a escolha do corpo da banca, onde estamos ativamente buscando trazer diversidade, já com a ajuda do Instituto das Pretas.
Os trabalhos aprovados serão publicados em livro digital com ISBN, em parceria com o PPGES/Ufes, e o Instituto Jones Santos Neves (IJSN), com lançamento previsto para maio de 2027. Os três melhores receberão premiação em dinheiro, R$ 3.000, R$ 2.500 e R$ 1.500, respectivamente. Pequeno gesto, grande sinal: conhecimento com impacto real merece reconhecimento concreto.
As inscrições estão abertas até 3 de junho, pelo site da Conferência Sustentabilidade Brasil.
Conferência Sustentabilidade Brasil 2026 — 25 e 26 de junho, Ufes, Vitória (ES)