Prezada Ana Thaís,
Houve um tempo em que eu via futebol com mais atenção. Hoje ando distante, distraída, embora ainda goste da hora do hino e dos pênaltis, quando é o caso. Xingo o juiz, se preciso. Torço segundo orientações, como a minha amiga, e folheio notícias, displicentemente, enquanto corre o jogo. O que ainda me emociona é o caminho trilhado por alguns jogadores e o modo coletivo de construir as vitórias.
De uns meses pra cá, me emociona também a sua força. Não é pouco chegar onde você chegou nem tampouco deve ter sido fácil se tornar a primeira mulher da História a comentar um jogo de futebol na TV aberta brasileira.
Como jornalista, bato palmas para o fato de que você domina as táticas e técnicas do assunto sobre o qual comenta. Como mulher, reverencio o pioneirismo e a firmeza sem perder a ternura com que você se posiciona.
Eu contei, Ana Thaís: no jogo da última segunda-feira, 30 minutos se passaram até que o narrador famoso convocasse você a fazer um comentário, mais da metade de um tempo inteiro da partida entre brasileiros e suíços no Catar - um país, aliás, pouquíssimo afeito aos direitos femininos. Os outros comentaristas - dois homens - foram chamados muito antes.
Como se não bastasse, nenhum eco sobre os seus comentários foi visto, sentido ou ouvido, ao contrário do que estamos acostumados a presenciar no Clube do Bolinha das transmissões de TV, um emendando a frase do outro, um rindo da piada do outro, completando o raciocínio ou exaltando a tirada do outro, uma irmandade só.
Seu feito, Ana Thaís, é mesmo histórico. Afinal, foram necessários 52 anos desde a primeira transmissão brasileira de uma Copa do Mundo para que uma mulher estreasse como comentarista na TV aberta. Uma mulher que estudou jornalismo graças a uma bolsa do Prouni, que nasceu na periferia, que enfrentou o machismo das redações e dos estádios, que seguiu o jogo, literalmente.
O espaço conquistado por você merece ser celebrado, Ana Thaís. Por mulheres e por homens. Por quem ama o futebol e por quem não liga tanto, mas sabe do imenso poder do esporte na desconstrução de preconceitos e na construção de oportunidades. Por quem torce pela igualdade e pela diversidade.
Sua conquista acaba sendo, de algum modo, de todas as mulheres e de um país inteiro.
Obrigada por isso e até mais.