Seguimos, como deve ser, mas a verdade é que manter o otimismo e a leveza diante do noticiário brasileiro não tem sido tarefa fácil.
Os exemplos estão por toda a parte. Dois deles especialmente me chamam atenção neste comecinho de julho, um contraste só.
De Londres, um dos maiores gênios da publicidade nacional envia o retrato de um Brasil que a maioria de nós não vê nem vive. Um retrato que desaponta não só pelo elitismo que exalta, mas por sua enorme desconexão com a desbotada realidade verde-amarela dos últimos tempos.
Ao narrar em sua coluna de jornal a visita do filho e de seus amigos que vivem fora do país, Washington Olivetto desenha um Brasil visto de fora, a uma distância segura dos 33 milhões de famintos, dos 4,6 milhões de desempregados, da violência e da corrupção que ainda há quem diga que não havia.
Um Brasil quase todo oposto ao que Walter Casagrande nos apresenta na entrevista em que se despede do papel de comentarista de TV. Ao falar da função social do futebol e da desigualdade que permeia o campo, ele revela um país de instituições caídas, ética frágil, radicalismo, homofobia, machismo, racismo e uma imensa inversão de valores.
W.Casagrande e W.Olivetto têm o futebol em comum. Um faz parte do grupo que idealizou e o outro deu nome à Democracia Corinthiana, um movimento criado por jogadores no início dos anos 1980 para defender a gestão coletiva do Corinthians e o fim da ditadura militar brasileira.
No Brasil de um, os prazeres ainda são possíveis: camarão para quem for de camarão, paqueras correspondidas, uma paradinha no Copa, outra na Feijoada da Portela, jantarzinho no Satyricon, caminhar por Ipanema, um mergulho no Arpoador.
No do outro, ao contrário, o preço do feijão não cabe no poema - nem o do leite, o do óleo, a carne, a luz, o gás; gasolina, então, nem se fala.
Neste Brasil, mais próximo daquele que vemos e vivemos nos últimos tempos, a dureza das notícias nos desafia diariamente.
E que Washington Olivetto me perdoe, mas, a despeito de sua imensa contribuição para a comunicação e a memória afetiva do país, os motivos que aproximam uma temporada por aqui de uma pós-graduação de vida estão muito, muito distantes, das belezas e delícias de uma tarde no Leblon.