Sim, ainda vivemos numa sociedade em que, quando uma mulher ocupa o lugar de desejo, de igualdade, vira notícia. Aliás, no século XXI isso não deveria existir, deveria ser normal, comum, mas não é. A Copa do Mundo desse ano assume uma fisionomia histórica, porque dá lugar a quem sempre deveria ter tido e sempre deve ter.
Renata Silveira chegou a escrever: "Conseguimos! Chegamos! Que vitória! Hoje, mais uma vez foi por todas! A porta tá aberta, mulherada. Podem entrar!". Esse ano, um outro marco ganha evidência na Copa do Mundo do Mundo Árabe: pela primeira vez uma mulher é árbitra na competição. Se trata da francesa Stéphanie Frappart.
É muito mais que uma mulher a narrar a Copa numa TV aberta, e de fato uma partida simbólica. É uma partida inaugural, sobretudo pelo lugar e pelo modelo de sociedade e dos valores sociais do lugar que sedia o evento – o Catar. Por lá, apenas 26% da população é formada por mulheres. Ainda assim, se pode imaginar como sua figura não é valorizada, ainda mais quando falamos em um país do Oriente Médio, região estigmatizada pelas assustadoras burcas.
O Catar conta ainda com uma legislação rígida, com leis anti-LGBTQIA+, contra demonstrações afetuosas públicas e restrições ao sexo feminino. O Catar é considerado o país com o maior número de homens para cada mulher. De acordo com o Qatar Statistics Authority, a população masculina atual é de aproximadamente 2.036.932 homens, e cerca de 646.575 mulheres.
Uma Copa do Mundo sempre é muito mais do que partidas de futebol, é sempre o encontro do diferente, do plural, de vários rostos, de várias vozes, ainda mais em um país com certa miopia feminina. Culturalmente estamos fincados numa sociedade patriarcal, ou seja, que o homem está no centro dela, aproveitando a relação de domínio deles sobre as mulheres, ou ainda, de qualquer outro grupo de pessoas, gênero, raça, classe social ou orientação sexual.
Seja na Copa, no campo do mundo e nas mais diversas partidas da vida, precisamos jogar o jogo da igualdade, dos valores e do respeito. Se o Brasil não vencer a Copa, pelo menos, já vencemos mais uma partida, no jogo da igualdade e dos direitos humanos.