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Vida

Carta aberta a Drauzio Varella sobre o exercício da incerteza

É inspirador ver o médico mais popular do Brasil defender a medicina como um exercício perene de aprendizado e de confronto diário com a própria ignorância, e dizer que o conhecimento e a experiência aumentam a complexidade das escolhas

Publicado em 12 de Junho de 2022 às 02:00

Públicado em 

12 jun 2022 às 02:00
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

O Dr. Drauzio Varella disse que a vacina contra a Covid-19 vai impedir que as pessoas acabem em UTIs
 Dr. Drauzio Varella  Crédito: Bruno Santos/Folhapress
Prezado dr. Drauzio Varella,
Escrevo esta carta aberta logo depois de terminar a leitura do seu livro de memórias. Num tempo de falsidades, soberbas e vaidades, não deixa de ser um alento ler "O Exercício da Incerteza" e descobrir a sua convicção de que ainda há muito por fazer, aos 78 anos de idade e 50 de carreira.
A trajetória que o senhor construiu, feita de solidariedade, empatia e uma incansável busca por informação, demonstra grandeza, generosidade e um genuíno interesse pelo ser humano, acima de qualquer imperfeição.
É inspirador ver o médico mais popular do Brasil defender a medicina como um exercício perene de aprendizado e de confronto diário com a própria ignorância, vê-lo dizer que o conhecimento e a experiência aumentam a complexidade das escolhas e que, quanto mais velho e experimentado fica, mais dúvidas carrega.
É admirável ver um dos pioneiros no tratamento da Aids, oncologista respeitado e clínico voluntário em presídios falar do quanto, em um mês de atendimento na cadeia, aprendeu mais sobre a desigualdade, a perversidade da distribuição de renda, a discriminação e o preconceito do que em tudo que leu sobre a organização social brasileira.
É tocante vê-lo contar sobre as paixões que afloram entre pessoas confinadas: ódio, generosidade, empatia, medo, perversidade, sadismo, altruísmo, compaixão, inveja, amor.
O senhor tem toda razão, dr. Drauzio. À medida que nosso horizonte encurta, aumenta a necessidade de nos concentrarmos no essencial - o que nos move, o que nos emociona, o que faz o olho brilhar, o inegociável do texto de outro dia.
Afinal, é igualmente verdade que, em certos momentos, a vida nos impõe a frase da Divina Comédia escolhida pelo palestrante que o senhor ouviu falar naquele congresso médico de Estocolmo, em 1986.
- No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempos de crise.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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