Prezado dr. Drauzio Varella,
Escrevo esta carta aberta logo depois de terminar a leitura do seu livro de memórias. Num tempo de falsidades, soberbas e vaidades, não deixa de ser um alento ler "O Exercício da Incerteza" e descobrir a sua convicção de que ainda há muito por fazer, aos 78 anos de idade e 50 de carreira.
A trajetória que o senhor construiu, feita de solidariedade, empatia e uma incansável busca por informação, demonstra grandeza, generosidade e um genuíno interesse pelo ser humano, acima de qualquer imperfeição.
É inspirador ver o médico mais popular do Brasil defender a medicina como um exercício perene de aprendizado e de confronto diário com a própria ignorância, vê-lo dizer que o conhecimento e a experiência aumentam a complexidade das escolhas e que, quanto mais velho e experimentado fica, mais dúvidas carrega.
É admirável ver um dos pioneiros no tratamento da Aids, oncologista respeitado e clínico voluntário em presídios falar do quanto, em um mês de atendimento na cadeia, aprendeu mais sobre a desigualdade, a perversidade da distribuição de renda, a discriminação e o preconceito do que em tudo que leu sobre a organização social brasileira.
É tocante vê-lo contar sobre as paixões que afloram entre pessoas confinadas: ódio, generosidade, empatia, medo, perversidade, sadismo, altruísmo, compaixão, inveja, amor.
O senhor tem toda razão, dr. Drauzio. À medida que nosso horizonte encurta, aumenta a necessidade de nos concentrarmos no essencial - o que nos move, o que nos emociona, o que faz o olho brilhar, o inegociável do texto de outro dia.
Afinal, é igualmente verdade que, em certos momentos, a vida nos impõe a frase da Divina Comédia escolhida pelo palestrante que o senhor ouviu falar naquele congresso médico de Estocolmo, em 1986.
- No inferno, os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolheram a neutralidade em tempos de crise.