Há poucos dias, uma reportagem exibida no programa "Fantástico", da Rede Globo, que tinha como objetivo registrar as condições de transexuais em penitenciárias brasileiras, acabou tornando-se o foco de acaloradas discussões. Isso porque o conhecido médico Drauzio Varella, no final da reportagem, ao saber que a detenta Suzy de Oliveira estava presa e não recebia visitas há cerca de oito anos, decidiu dar um abraço na presidiária.
Num primeiro momento, diversos telespectadores, sensibilizados com a solidão duradoura de Suzy, decidiram enviar-lhe correspondências. Porém, dias depois, o caso ganhou ainda mais repercussão quando veio à tona o motivo grave que levou Suzy à prisão. Daí em diante, o que se viu, foi um verdadeiro linchamento virtual, tanto da presidiária quanto do próprio Drauzio Varella e da Rede Globo de Televisão.
Mas, não nos enganemos, não foi uma suposta omissão do motivo da prisão de Suzy que gerou toda a revolta, foi sim o abraço dado pelo médico a razão para tamanho burburinho, tanto é verdade, que, na tentativa de condenar o abraço dado por Drauzio Varella, procurou-se saber por que Suzy estava presa, no intuito exclusivo de tratar um abraço como algo inaceitável.
Certamente, se a reportagem houvesse dito, desde logo, a imputação que pesa contra a detenta, o abraço seria igualmente visto com maus olhos por aqueles que pensam e sustentam que “bandido bom é bandido morto”.
Aliás, a maioria dos revoltados com o abraço que Suzy recebeu de Drauzio Varella age com naturalidade quando se noticia que políticos influentes não só abraçaram condenados por crimes graves, como também, chegaram a empregá-los e a homenageá-los. O próprio presidente Jair Bolsonaro, que elegeu o abraço dado em Suzy como o principal problema do país (maior até que a pandemia do coronavírus e a crise econômica), publicamente considerou Carlos Alberto Brilhante Ustra como um herói nacional, mesmo sendo Ustra responsável por uma rede de tortura, mortes e estupros, muitas vezes, praticados diretamente por ele.
A diferença é que Suzy foi condenada e está presa pelos crimes reprováveis que cometeu, enquanto Ustra sequer foi responsabilizado e é tratado como herói pelo presidente. Ou seja, há uma incoerência muito grande nessa irresignação seletiva.
"A empatia é cada vez mais rara nos tempos atuais, marcados pelo ódio e pela ânsia em julgar e condenar"
Importa dizer que ninguém defendeu os crimes bárbaros praticados por Suzy, quem a escreveu não lhe disse que foi certo o que ela cometeu, pelo contrário, quem se sensibilizou com a história da detenta viu o ser humano que há por trás do crime. É muito mais fácil se sensibilizar com a história de alguém inocente do que aceitar que aqueles que cometeram crimes também são passíveis de sofrimento e de arrependimento. A empatia é cada vez mais rara nos tempos atuais, marcados pelo ódio e pela ânsia em julgar e condenar.
Suzy delinquiu, foi condenada e está presa, respondendo pelos crimes, porém, a condenação não retira dela a qualidade de ser humano.