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Crônica

Abaixo a salsinha (em memória de Luis Fernando Verissimo)

Nosso movimento pleiteia que a salsinha seja explicitamente descrita no cardápio em pratos que optarem por usá-la como ingrediente, permitindo a fuga do conviva em caso de necessidade

Publicado em 07 de Setembro de 2025 às 03:30

Públicado em 

07 set 2025 às 03:30
Ana Laura Nahas

Colunista

Ana Laura Nahas

Eu podia enumerar dezenas de textos incríveis que Luis Fernando Verissimo publicou ao longo dos anos, listar meus favoritos, prometer ler os outros, imitar a rotina regular e disciplinada adotada por ele para o ofício. Podia celebrar que ele escreveu fácil sobre temas difíceis, que esteve ao lado dos contestadores mesmo com a vida ganha.
Eu podia exaltar o amor dele pelo jazz, a elegância do seu traço, a aparente simplicidade de seus textos, a ironia fina que ele costurava às palavras. Podia dizer do alento de ver um sujeito declaradamente tímido escrever pelos cotovelos, bem-acabado e constante.
Eu podia enaltecê-lo por escolher a crônica como caminho, por elevar ao infinito e além o gênero que também tem sido o meu eleito, sob as bênçãos de Rubem Braga, José Carlos Oliveira, Carmélia Maria de Souza, Paulo Mendes Campos, João do Rio, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Clarice Lispector, Martha Medeiros e Carlos Drummond de Andrade.
Eu podia aplaudir em público seu jeito de explicar a política, a geografia e o cotidiano, com doses de picardia, mas sem perder a ternura. Podia ficar horas em torno daquela frase, dita ao modo Verissimo de dizer coisas fundas como quem não quer nada.
— Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas.
Acontece que hoje quero lembrar de outra história, de quando Verissimo traduziu com perfeição um drama da vida privada: o horror ao polêmico e onipresente uso da salsinha.
Segundo o dicionário Verissimo dos fatos terríveis, embora persista certa indefinição de conceitos, salsinha é tudo o que está no prato para enfeitar ou confundir o paladar. Os mais rigorosos definiriam o ingrediente como aquele verdinho picado que a gente não consegue tirar de cima da comida. Para outros, a palavra abarca tudo de persistentemente supérfluo na vida, da retórica ao porta-aviões, passando pelo cheiro-verde.
Faço parte deste último grupo, dos que preferem dispensar excessos, discursos autocentrados, invenções de utilidade duvidosa e o trio coentro-salsinha-cebolinha.
O premiado escritor Luis Fernando Veríssimo.
O premiado escritor Luis Fernando Verissimo Crédito: Mastrangelo Reino/Folhapress
Evidentemente, o líder da rebelião antissalsinha sabia que nossos opositores eram muitos. Os defensores do verdinho dizem que ela existe para fazer bonito, o que, para Verissimo, só confirma que cheiro verde não serve pra nada além de roubar espaço da comida.
Que mantenham a calma. Verissimo não reivindicava o fim da salsinha. O ingrediente — palavras dele — é uma tradição milenar, e todos sabemos como as velhas ordens custam a morrer. O que ele postulava era o direito de escolha.
Seu lema virou meu também: não está escrito em lugar algum que um prato só pode ir para a mesa depois de uma generosa quantidade de salsinha espalhada por cima de tudo. Em memória do filho de seu Érico e dona Mafalda, vou um pouco além. Nosso movimento pleiteia que a salsinha seja explicitamente descrita no cardápio em pratos que optarem por usá-la como ingrediente, permitindo a fuga do conviva em caso de necessidade.

Ana Laura Nahas

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais A Gazeta e Folha de São Paulo e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Autora dos livros Todo Sentimento e Quase um Segundo, escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura

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