Depois de um infarto das coronárias, em dezembro de 1994, nunca mais fui o mesmo homem. Andar na areia da praia eu bem que consegui e consigo até hoje. Aos poucos, fui praticando passos em quantidade crescente e em ritmo mais acelerado, sempre condicionado ao que sentia no peito. A dor, aprendi com um homem sábio, é nada mais, nada menos do que um indicador da nossa incapacidade de fazer esforço físico, a cada momento do dia, ao longo da vida, pra ser mais exato.
Aprendi, na sequência, que a dor desaparece ao reduzirmos o ritmo dos passos e, consequentemente, do esforço. Livre da dor, pode-se acelerar e manter o ritmo das passadas até que ela ressurja, muito provavelmente em um nível mais elevado de esforço. É uma espécie de brincadeira de pique-esconde.
Como já contei aqui, estou há mais de 30 anos sem nadar nem uns 10 metros, que seja. Isso, depois de ter sido, durante uns 10 anos, um competente nadador. Em outras palavras, um nadador que competia e sempre ganhava.
Pois foi vendo aquele pessoal todo nadando na praia da esquerda foi me dando uma inveja desenfreada de dar umas boas braçadas, indo e voltando, lá no fundão.
Sempre achei que a determinação tem papel relevante na vida da gente, a insistência também. Isso sem falar no mérito da força de vontade, da autoconfiança e da coragem. É bem verdade que, na minha condição de pretendente a nadador matinal, a inveja jogou um papel determinante. Sempre entendi que a inveja é uma potente força motriz das nossas escolhas e decisões.
Senhor das minhas deficiências físicas e de alternativas par contorná-las, resolvi testar como estaria a minha condição dentro d'água, após caminhar bastante na areia. Para minha grata surpresa, a tal dor nos peitos só foi aparecer quando forcei as braçadas, desaparecendo com a redução do esforço. Confesso que fiquei me achando um idoso de bom potencial.
O mar, nessas últimas semanas, esteve calmo, com águas quentes e limpas e os ventos quase sempre na categoria de fracos a moderados, soprando da terra pro mar. Eu sou um inveterado apreciador do vento terral. Os vindos do sul, mais frios, também sopraram, mas o morro da ilha protege os usuários da praia da esquerda de eventuais friacas.
Pois na semana passada, após um período razoável de treino de braçadas variáveis, já constatando o surgimento de “muque” nos dois braços, me programei para tentar nadar tão logo Carol voltasse do Rio. Combinei com ela que levasse o celular para registrar o início da minha carreira de nadador de travessias. Como era de esperar, demonstrou uma certa euforia, dessas de fazer marido ficar se achando o tal.
Na segunda-feira acordei cedinho para ir treinar. Ainda na cama, pensando na vida, me veio uma questão relevante, merecedora de atenção. Com o passar dos minutos, ao usar meus parcos conhecimentos sobre anatomia e, sobretudo, meu bom senso, o que era uma dúvida foi virando uma certeza. A musculatura utilizada para movimentar as pernas no nado livre não é exatamente a mesma que é acionada para que a pessoa possa andar e correr.
Como sempre, depois de andar em ritmo forte, entrei na água e tratei de remar firme com os braços, pra frente e pra trás, pra cima e pra baixo e nada de dor aparecer. Foi o suficiente para me deitar no rasinho e com as mãos na areia, começasse a movimentar as pernas esticadas pra cima e pra baixo como se estivesse nadando na piscina. Não demorou e lá estava a danada da dor nos peitos, abrangente e cheia de razão.
Desse jeito, só me resta pegar a boia cor de abóbora, que ganhei de um nadador solidário, e começar a bater pernas em ritmo progressivo até retomar meu status de nadador sorridente, que será devidamente registrado e compartilhado nas redes.