No começo da semana fui lá na Biblioteca da Praia do Suá para desmontar a instalação que havíamos feito como parte da Roda de Conversa “Fazer bem feito compensa". Tratamos de contar, com máxima atenção, a quantidade de colheres que foram colocadas dentro de um grande expositor, uma espécie de vitrine, em lugar de destaque do saguão do piso superior.
Tínhamos feito uma brincadeira, um desafio, para ver quem conseguia dizer a quantidade de colheres que lá estavam. Rafael, meu filho, usou um aplicativo desses modernos, acessível pelo celular, que permite que as pessoas deem seu palpite clicando num QR code.
A conversa tinha sido muito animada e intensa. Ao todo umas 50 pessoas, entre gente conhecida, de perto e de longe, e outras tantas de carinha amistosa que eu nunca tinha visto. Deu gosto de ver o ambiente que se manteve durante quase duas horas, com perguntas cheias de curiosidades, comentários instigantes e até salvas de palmas aos que se pronunciavam.
O que eu tinha a dizer era fruto da experiência de estar às voltas com os prazeres de produzir, com ferramentas manuais, objetos e utensílios de bambu que podem ser chamados de colheres. Convém lembrar que nem só de fazer vive o homem, mais do que isso, que ele é movido por emoções. Boas, de preferência.
É nesse plano que as melhores coisas acontecem e fazem bem pra saúde. Elas começam a se instalar ao se escolher o que se pretende criar, ao se conseguir avançar na direção pretendida e ao se ver o resultado, pronto e acabado, seja ele uma peça, um quadro, um texto. O que aprendi, na prática, é que o melhor chega quando surgem elogios pelo que foi produzido, sobretudo pelo que foi bem feito, que não tenha defeitos perceptíveis.
Fazer algo que encanta e emociona alguém é condição natural para desdobramentos pretendidos e, por que não, até mesmo alguns impensáveis. Deixando de lado os aspectos relacionados com valor de venda, gosto de me concentrar nas demonstrações de apreço na forma de convites para expor, artigos em revistas e tudo o mais que acontece por obra e graça do que pessoas podem sentir ou pensar diante de uma simples colher.
Para compor o registro emocional e marcar de vez a satisfação dos presentes, menciono aqui que uma artesã de carinha sorridente soltou uma mensagem na rede intitulada “Ainda bem que eu fui”. Trata-se de uma comprovação de que foi muito prazeroso estarmos naquela roda, conversando sobre a vida e o fazer.
Outro desdobramento ocorreu ontem, quando voltei lá, levando um exemplar do meu livro, como prêmio para a bibliotecária, cujo palpite mais se aproximou das 1011 colheres expostas na vitrine. Uma festa, com selfie e tudo, se instalou quando entreguei uma colher grande que fiz para ela e uma bem pequena para a secretária que havia nos ajudado o tempo todo.
Muita gente adora facas e até faz coleção delas. Mas acredito que pouca gente já se deu conta de que adora colheres. Faz tempo, aprendi com um professor alemão de design de joias, dono de uma belíssima coleção delas, que essa atração tem motivações e origens ancestrais: a colher era o primeiro objeto que a criança tomava contato na vida, fosse ela feita com uma folha, uma casca ou um pedaço de madeira. Vai saber...
Além do prazer de fazer as colheres, me surpreendo sempre ao constatar como elas são assunto leve, bom pra abastecer conversas sobre a vida e provocar palavras, gestos e iniciativas de reconhecimento e aprendizado. Fazer bem feito compensa. E muito!