Acabo de ver o pessoal do skate na Olimpíada de Tóquio vivendo em alegre harmonia, torcendo pelo sucesso de seus competidores. São cenas emocionantes que contrastam com a zorra instaurada em terra brasilis, por um presidente desvairado e obsessivo por poder. Decididamente, o que tenho visto nas esferas políticas por aqui não me inspira nem me alegra. Pelo contrário, me faz perder a graça e me preocupar com o que de indesejável possa estar a caminho.
Sinto saudades de Ulysses Guimarães, que comandou a Assembleia Nacional Constituinte de maneira digna e exemplar, acima de facções religiosas, grupos de gulosos, rebeldes irritados, milícias e proprietários de fato e de sempre. Ele foi capaz de fazer convergir e de criar um ambiente de tolerância, em favor de um acordo geral entre diferentes. Sinto saudades, também, de gente dotada de capacidade de conversar por horas a fio, sabendo ouvir e argumentar, com decência e convicção, sem se agredir ou inviabilizar convergências parciais, relevantíssimas.
Também tenho saudades dos tempos em que foi sendo ampliado o entendimento sobre o que deveria ser preservado e valorizado como patrimônio histórico e cultural de um lugar, de uma gente. Tenho fortes saudades de Gilberto Gil como Ministro da Cultura ou, se parecer mais adequado, de Ministério da Cultura sob a direção plural e incentivadora de Gilberto Gil.
Sempre me lembro dos técnicos, pesquisadores e dirigentes visionários, que ajudaram a criar uma mentalidade nacional em favor da proteção e valorização do meio ambiente, em especial de áreas estratégicas como a do Pantanal, da Amazônia e da Mata Atlântica. Sem a contribuição deles, estaríamos engatinhando e sem convicção para enfrentar a insensatez e as boiadas em geral.
Tenho saudade de figuras como Darcy Ribeiro, com sua compreensão do Brasil e do valor da educação, e de Juscelino, que estava sempre sorrindo, gostava de serenata e queria fazer tudo em 5 anos.
De situações mais recentes, tenho saudades de tardes diante da TV assistindo com atenção ao desenrolar do mensalão e, como desdobramento, da Lava Jato, produzindo manchetes diárias sobre falcatruas políticas, negócios bilionários, processos e prisões inimagináveis. As notícias produziam uma sensação de “até que enfim” e alguma dose de esperança na melhoria dos padrões de governo. Bem sei que há quem não sinta esse tipo de saudade nem considere relevantes os bilhões de reais recuperados.
Tenho saudades das décadas em que a população brasileira tinha orgulho e confiança nas urnas eletrônicas do TSE.
De uma coisa estou absolutamente convicto: esse presidente e sua turma de seguidores não produzirão em mim, qualquer tipo de saudade, em tempo algum. Não me inspiram nem me fazem querer que fiquem por perto.
Sou da turma dos que sentem saudade do tempo em que não tinha reeleição.