Nesta quarta-feira (12) estive, a convite do governo do Estado, na solenidade de entrega das obras de recuperação dos armazéns do Porto de Vitória. Foi bom constatar que, finalmente, está em curso um movimento vigoroso para possibilitar acesso público aos prédios e espaços até então desgarrados do resto da cidade. Inacessíveis, seria mais exato.
Pelo que foi dito e prometido, aquele lugar estratégico abrigará um museu, uma escola profissionalizante e espaços para atividades culturais e de convívio. Por certo, estarão garantidas adequadas condições de acesso e de permanência para pessoas e veículos.
Se tudo der certo, a cidade ficará mais perto do mar, ampliando o contato e o acesso das pessoas às águas, a exemplo do que vem acontecendo em outros pontos da Ilha. Digo, com convicção e por experiência, que será muito bom pra saúde, pro lazer e pra namorar.
É bem verdade que o porto sempre se apresentou pra mim como um lugar inacessível e misterioso, despregado da cidade, praticamente inútil para a felicidade da sua população. Alguns poderosos de plantão, funcionários, burocratas, estivadores e operadores de guindastes e máquinas eram os únicos que o frequentavam.
Nos idos do final dos anos 1960, a rapaziada tinha ali a única alternativa para comprar as famosas calças Lee, que algumas vezes eram Wrangler ou Levi’s, que chegavam aqui trazidas por tripulantes de navios. Sombra, um homem baixo de poucas palavras, tinha a capacidade de entrar com dinheiro nosso no bolso e de sair pelo portão principal com cara de anjo, trazendo uma ou duas calças, nem sempre do tamanho adequado. Era uma espécie de contrabando ingênuo, mas de grande utilidade para nossa elegância juvenil.
Naquela época, o Centro era um lugar absolutamente indispensável para os moradores da cidade e arredores. Abrigava praticamente todos os órgãos públicos, empresas, bancos, faculdades e escolas, lojas de todo tipo, cinemas e teatros, consultórios médicos, hotéis, livrarias, farmácias, os Correios e o saudoso Britz Bar.
Na Costa Pereira, participei do trote da engenharia e das comemorações da Copa de 70, com a liberação dos palavrões. Na Jerônimo Monteiro, desfilei me equilibrando numa bicicleta, bati bumbo na banda do Salesiano e, se bem me lembro, sambei fantasiado de pirata no carnaval. Posso garantir que vi Celly Campello cantando “Banho de Lua” no antigo Álvares Cabral e dancei coladinho (era como se dizia) na Fafi e na Odontologia, no alto do morro.
Hoje, frequento o Mercado da Vila Rubim pra comprar sarda cavala, comida pra arara, vassoura, queijo da roça, pomada pra dor nas costas, bala de coco Itabira, jujuba, pau de canela, panela e muito mais. Adoro.
Mas, na volta pra casa, sempre era obrigado a conviver com a degradação escancarada nas instalações dos armazéns do porto, verdadeiro testemunho da decadência do Centro da Cidade e, porque não dizer, uma prova cabal do desleixo e incompetência do poder público em todas as suas esferas.
Quarta, vendo o amarelo forte das paredes, dando crédito às palavras de homens públicos e atento ao que era dito por representante de empresa muito poderosa, por pouco ia me esquecendo do pó preto nosso de cada dia.