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Crônica

"Ele é do Britz!", a escola superior da boemia de Vitória

De frente para a Rua Gama Rosa e de banda para a antiga sede da Prefeitura de Vitória: no Britz, moravam a alegria, o deboche, a maledicência, a inventividade, a admiração mútua e as piadas prontas

Públicado em 

30 jul 2023 às 00:20
Marcos Alencar

Colunista

Marcos Alencar

Crônica
Britz Bar, ilustração de Amarildo para crônica de Marcos Alencar Crédito: Amarildo
As mães que gostavam de cantarolar a marchinha do Bola Preta “lugar quente é na cama” não conheceram o Britz. Ali, sim, é que a coisa esquentava. Aliás, sempre que se fala do Britz a minha dúvida é sempre a mesma: como é que os moradores do Edifício Presidente conseguiam dormir? Vai saber...
O prédio se debruçava sobre as mesas plantadas naquela calçada estendida e contornada por um gradil metálico. De frente para a Rua Gama Rosa e de banda para a antiga sede da Prefeitura de Vitória. No Britz, moravam a alegria, o deboche, a maledicência, a inventividade, a admiração mútua, as piadas prontas e as que estavam na fila esperando pela sua vez.
Nós, os felizes donos do lugar (pelo menos era assim que a gente se sentia) tomávamos as rédeas daquela dolce vita nas noites de segunda a sexta e nas tardes dos sábados e domingos. O expediente era puxado, mas, por incrível que pareça, estávamos sempre prontos a encarar aquele desafio.
Éramos bons de serviço, ora se... E comandávamos o alvoroço em torno de uma única mesa à beira da calçada. Que engordava, na medida que novos companheiros iam chegando e juntando as cadeiras. Cada qual com as suas preferências A maioria tomava chope, uma cachacinha nas manhãs de sábado, eu bebia uísque e Carmélia só largava o copinho de conhaque para ir ao banheiro. Como no térreo só havia um sanitário, sempre que a Félia sentia vontade de verter água, um de nós se levantava e ficava de guarda no início do corredor que levava a ele. Quem estivesse apertado que esperasse a cronista voltar do trono.
Se bem me lembro, só cinco pessoas falavam baixo por ali: Fabio Tancredi, Fred von Randow, Mauro Leite, Serginho Egito e a jornalista Maura Fraga. Já eu, Ana Clara e Demilson Martins, meus queridos compadres, Antonio Aquino, Mauro Pylro, Careca Martins, Faustinho, Marlene Simonetti, Henrique Merçon, Erildo dos Anjos, Nilo de Mingo, Mariângela Pellerano, Rubinho Gomes, Milson Henriques, Emilia Petinari, Marcelo Osório, Urano Souza e Joaozinho Pega Janta abusávamos de todos os graves e agudos.
Britz, o “Rei da Pizza, agora sob nova orientação”, era o Britz de Eduardo Parú. Dono e dobberman da área, ele ao mesmo tempo em que passava a mão em nossas cabeças estava sempre vestido de chefe de disciplina do bar e arredores. Quando um dia reclamei em voz alta, fui “suspenso” por trinta dias. Juro por Deus. Parú não deixava que Carlinhos e Luiz Breba (os melhores garçons do mundo) me servissem.
Outros devotos, bem menos católicos do que nós, frequentavam aquela catedral. Mas não subiam ao altar. Em seus postos de observação, a dois passos de distância de nossa mesa, eles riam de nós e juntos ríamos sempre que uma besteira inteligente ganhava volume.
Faltavam muito ao, digamos, serviço, mas eles eram sempre muito bem-vindos: Dr. Edson Dias, Toninho Rosetti, a doutora Sonia Coutinho, Humberto Musso, Nazareth Brandão Guimarães, Antônio Caldas Brito, Bete Osório, o colunista Heraldo Brasil, Chico Neto, Tinoco dos Anjos, Nelsa Amaral, Pedro Anísio, Antonio Alaerte... O pagode era muito bom! E a gente não precisava de mais nada. No meu caso, mais uma pedrinha de gelo vinha sempre a calhar.
Quando era jogo da Seleção, o Britz virava Maracanã. Numa daquelas partidas decisivas o Brasil precisava ganhar do Uruguai para não ser desclassificado. Já no finalzinho da partida, depois de muito sofrimento, veio o gol. E farra. Gritos, choros, foguetes, apitos... inesquecível. No meio daquele fuzuê, surge Merçon, adoravelmente bêbado e repetindo sem parar: “Até parece... uma simples Província Cisplatina achando que ia ganhar da gente!! Vai se catar!!"
O querido reitor, Eduardo Parú, tinha a língua meio presa. Reza a lenda que depois de se decidir pelo nome do estabelecimento, já às vésperas da inauguração, foi procurar por um pintor de placas. O rebento iria se chamar BLITZ BAR. Só que Eduardo não conseguia pronunciar BLITZ. Ele falava BRITZ. E o pintor foi fiel ao que ouviu do cliente. E assim o bar virou Britz, já que a inauguração não poderia esperar por uma nova placa. De nossa parte, nada a reclamar.

Marcos Alencar

Marcos Alencar é colunista de A Gazeta

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