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Mistério

Coisas estranhas que acontecem no Centro de Vitória

Surpresa foi ver o que vi naquele momento: um senhor de cabelos brancos, bermudas e chinelos pula o muro, arrastando um saco repleto de vasilhames azuis

Publicado em 28 de Março de 2023 às 00:10

Públicado em 

28 mar 2023 às 00:10
Bernadette Lyra

Colunista

Bernadette Lyra Bernadette Lyra
Centro Histórico: Convento São Francisco
Centro Histórico de Vitória: Convento São Francisco Crédito: Rodrigo Gavini
Quando o sol da manhã vem nos dizer... assim começa a canção de Toquinho e Vinicius. E assim também começo eu mais uma vez a escrever sobre o Centro de Vitória. Ninguém ignora que o Centro está a pedir cuidados. Basta acompanhar os noticiários. Invasões, roubos, assaltos, mortes, estacionamentos indevidos, descaso com os monumentos históricos, enfim um rol de arrepiar a alma de quem mora nesta parte da cidade que, em outras cidades, é valorizada como um cartão de visita. Mas não é disso que quero falar. É sobre um acontecimento estranho que está a se repetir, dia a dia, no Centro. E merece atenção.
As últimas estrelas esmaecem no céu. As luzes semeadas por todo o maciço central começam a apagar. O horizonte entre os topos dos prédios se tinge de alaranjado. A ciranda diurna começa a girar lentamente. Sento-me diante do computador, como sempre. Latidos me chamam a atenção. Chego à janela. Vejo dois cães que rebolam na relva dos jardins do Convento de São Francisco, àquela hora ainda totalmente desertos. Não é surpresa ver cães por ali. Moradores costumam passear seus bichinhos de estimação no gramado. Surpresa mesmo foi ver o que vi naquele momento: um senhor de cabelos brancos, bermudas e chinelos pula o muro, arrastando um saco repleto de vasilhames azuis.
Quem escreve ficção sabe bem a atração que qualquer fato inusitado desperta no imaginário. É essa nossa especialidade, nossa prerrogativa, nossa mania. Fico intrigada quando o senhor pega dois daqueles recipientes, vai até o pé de flamboyant, que estende a majestosa copa até a rua, volteia o tronco e despeja um líquido sobre as raízes.
A seguir, ele repete o ritual dessa rega de raízes, antes cavoucando em torno do espinheiro maior e depois cobrindo tudo com a terra. Fico ainda mais intrigada porque não faz isso com todas as plantas, só com o flamboyant, o espinheiro e algumas mais viçosas. Depois, ele recolhe os recipientes já vazios no saco, pula de volta na rua e se vai. Não sem antes lançar olhares furtivos em torno, como quem averigua se alguém o observa.
Estou atônita. Quem é aquela criatura? Por que retorna sigilosamente a cada manhã? O que seria o líquido contido naquelas vasilhas azuis? Que sentido teria aquele gesto? Penso em gente que se dispõe a regar as árvores dos espaços públicos. Isso, porém, não combina com a escolha seletiva das plantas e com os modos dissimulados daquele senhor. Penso em gente que andou matando árvores em Vitória. Isso foi noticiado pelos meios de comunicação, mas é uma ação tão maldosa que dói e me recuso até em cogitar. E vocês o que pensam? Será que pensam que eu penso demais?

Bernadette Lyra

Bernadette Lyra Bernadette Lyra

É escritora de ficção e professora de cinema. Escreve quinzenalmente, às tercas-feiras, sobre livros, filmes, atualidades variadas e fatos contemporâneos

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