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Alvaro Abreu

Gripe derruba até a vontade de se indignar com notícias mais relevantes

Por mais relevantes, as notícias não comovem nem indignam quem é apanhado por uma simples gripe

Publicado em 18 de Abril de 2019 às 19:29

Públicado em 

18 abr 2019 às 19:29
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu Alvaro Abreu
Quando a gripe me derrubou Crédito: Divulgação
Acabo de sair de uma experiência relatável, mas não transmissível via jornal: uma gripe fortíssima que durou cinco dias completos. O que começou com um pequeno ardido na garganta, evoluiu para uma coriza progressiva e renitente, seguida de sessões de tosse seca. A certeza da doença, se é que gripe é doença, se instalou de vez quando percebi uma redução acentuada da capacidade auditiva e uma rara perda de apetite. Daí em diante, a coisa tomou rumo previsível e em ritmo crescente até me jogar na cama por dois dias completos. Percebi que, aos poucos, o mundo foi perdendo o interesse e a graça. O estado gripal faz aumentar a irritabilidade do acometido e tem o poder de provocar letargia e alienação. No auge do processo, o umbigo assume o controle geral da situação e faz valer o seu poder.
Desta vez, a tal gripe reduziu a quase zero minha sensibilidade aos noticiários sobre a vertente imobiliária do poder das milícias, as malandragens da concessionária que cobra pedágio e não duplica, a gulodice de ICMS, praticada por anos seguidos pela siderúrgica, as operações da Federal nas casas e escritórios de gente esperta e poderosa, a soltura instantânea de mais um preso precioso, sem falar na tentativa descarada, conduzida por dois indignos ministros do Supremo, de instalar a censura à imprensa no país.
Por mais relevantes, as notícias do mundo não comovem nem geram indignação em quem for apanhado por uma simples gripe viral, dessas que ficam à espreita de gente que sofre um choque de temperatura ao sair do carro ou ao entrar em lugar com ar-condicionado no máximo. Por essas e outras, tomo a liberdade de sugerir um gripezinha maneira, com direito a dias de cama, chá de limão, alho gengibre, mel e uma pitada de cachaça, aos meus amigos do peito e a quantos também estejam indignados e se sentindo impotentes e desanimados com a escalada das barbáries nacionais. O corpo ficará doído de tanto ficar deitado, porém, passados os dias de sofrências, a alma estará bem mais leve e descansada, prontinha pra aguentar o tranco e dar o troco.

Alvaro Abreu

Alvaro Abreu Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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