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Crônica

Fechando o bico e encerrando (por enquanto) o assunto da minha Amora

Estabeleci uma norma de defesa pessoal: não pego minha arara no colo quando estou vestindo camisa de abotoar. É que ela adora quebrar os botões e o faz de bate-pronto

Públicado em 

18 set 2020 às 05:00
Alvaro Abreu

Colunista

Alvaro Abreu

Arara
Recolho todas as penas que minha arara solta para enviá-las para amigas Crédito: Couleur/Pixabay
Pra esgotar o assunto, ao menos por enquanto, conto mais sobre meu convívio com Amora nestes tempos de pandemia. Começo dizendo que, dia desses, recebi vídeos sobre peripécias de araras Canindé: uma delas acompanhando ciclistas e pousando no braço de um deles, e outra abrindo e levantando um coco com o bico pra beber a água.
Impressiona a habilidade da espécie em manipular semente de girassol, amendoim com casca, jabuticaba e tudo o mais usando apenas seu poderoso bico e sua língua seca, de grande mobilidade. Ela rompe o que apanhou, separa o que lhe interessa, joga fora o que não quer e come o resto. Faz isso quebrando e comendo os coquinhos que trago da Praça do Papa. Isso, na próxima safra. Pretendo filmar essas cenas em câmera lenta e bem de pertinho, para que as crianças e os velhos possam ver e achar sensacional.
Por essas e outras, estabeleci uma norma de defesa pessoal: não pego minha arara no colo quando estou vestindo camisa de abotoar. É que ela adora quebrar os botões e o faz de bate-pronto, pressionando a parte debaixo do bico contra o centro do botão, seu ponto mais frágil, onde estão os furos para passar a linha.
Dia desses, fotografei de pertinho uma pena azul e publiquei no Instagram. Suas cores e suas formas perfeitas fizeram o maior sucesso. Recolho todas as penas que ela vai soltando para enviá-las para amigas nossas usarem em sua escolinha de arte, em Brasília. Elas e os alunos adoram.
Três penas do meio das asas cortadas é o preço da liberdade de viver solta e da garantia da minha tranquilidade. Uma vez, ela voou e pousou numa casa perto da nossa. Ao apanhá-la, deu dó de ver sua cara espantada e arrependida.
Me lembrei de ter visto, nos idos de 1965, duas araras empoleiradas ao lado da porta dos fundos da casa de amigos meus, ali perto da Gruta da Onça. Talvez as primeiras que tenha visto de perto. Recentemente, ao conferir com a irmã deles, ela confirmou minha lembrança. Contou que a mãe adorava araras, que criou muitas e que algumas faziam ninho embaixo da cama dela. Verdadeira prova de amizade e intimidade familiar.
O convívio com Amora me faz lembrar do bicudo de mamãe, que papai ganhou de Augusto Ruschi pouco antes de morrer e que ficou com ela muitos anos. O canto dele era melodioso, meio triste, talvez. Guardo uma foto que fiz dela tratando dele pela manhã, com as mãos perto da gaiola e ele olhando pra ela com atenção de passarinho manso. Morreu de velho. Era uma amizade e tanto aquela. Acho que lhe trazia lembranças do marido.

Alvaro Abreu

É engenheiro de produção, cronista e colhereiro. Neste espaço, sempre às sextas-feiras, crônicas sobre a cidade e a vida em família têm destaque, assim como um olhar sobre os acontecimentos do país

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