Para combater o surto inflacionário provocado pela pandemia do coronavírus, que explodiu em março de 2020, bancos centrais de todo o planeta subiram violentamente as taxas de juros. O problema é que, mesmo mais de seis anos depois do início da pandemia, as taxas de juros seguem bem altas aqui no Brasil, contrariando o histórico de ciclos de alta seguidos por ciclos de baixa. Uma espécie de pandemia dos juros altos. Por aqui, a última vez que a taxa Selic esteve em um dígito foi em fevereiro de 2022, portanto, há mais de quatro anos. Hoje, a Selic está em 14,5% ao ano, levando em conta que a inflação (IPCA) dos últimos 12 meses ficou em 4,39%, a taxa de juro real brasileira supera os 10% ao ano. Uma baita âncora amarrada no pé da economia brasileira.
Os impactos são variados. Quem está endividado, seja o consumidor ou uma grande empresa, está no sufoco (basta olhar a quantidade de recuperações extrajudiciais anunciadas nos últimos meses). Quem pretende investir e movimentar a economia, está pensando duas vezes, afinal, o custo do dinheiro está elevadíssimo. Quem vai buscar financiamento está pagando, no barato, 17,5% ao ano. Quem tem dinheiro na conta está recebendo, sem muito esforço, 14,5% ao ano. Ou seja, somando e subtraindo, tem que valer muito a pena se movimentar.
O problema dos juros altos é crônico na economia brasileira e deveria ser enfrentado de frente pelo próximo presidente da República (atacando as origens da questão e não via medidas populistas e na base da força, como já aconteceu). Em grande parte isso se dá porque gastamos demais para um país de renda média. O Brasil vem tendo seguidos déficits (com despesas acima das receitas) desde meados da década passada. A dívida pública já superou os 80% do PIB. O investidor cobra um prêmio mais elevado (que é o juro) para financiar a dívida brasileira. A guerra do Oriente Médio, que catapultou o preço do petróleo, só fez piorar o cenário.
"Muita gente acha que juro alto é bom para os bancos, mas não é a realidade. Juro alto, além de aumentar muito os nossos custos, tira o movimento da economia e isso é ruim para os negócios, ou seja, é ruim para os bancos. A nossa expectativa é de que os juros já estivessem mais baixos neste momento do ano, mas ainda estão em 14,5% ao ano. A previsão é terminar o ano com Selic a 13,25%, já esteve em 12%. É um freio muito forte na economia e, claro, nos negócios como um todo", disse Carlos Artur Hauschild, presidente do Banestes.
A previsão de crescimento de PIB, para 2026, feito pelos agentes de mercado por meio do Boletim Focus, está em 1,85%. Para o ano que vem, 1,77%. Muito pouco para um país de renda média, que tem tantos investimentos ainda por fazer e que vinha, na primeira metade da década, crescendo acima dos 3%. Mostra bem o tamanho da pancada dos juros na vida econômica do país.
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