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Maria Ângela Dantas, Anjinha, cozinheira do Palácio Anchieta
Maria Ângela Dantas, Anjinha, cozinheira do Palácio Anchieta. Crédito: Fernando Madeira

"Guardiões" do Palácio Anchieta: os funcionários mais antigos do prédio histórico

Há décadas, entra governo e sai governo, eles são os servidores que zelam, preservam e organizam a rotina interna do edifício de 470 anos

Publicado em 28/07/2021 às 02h02

Na década de 1980, uma jovem de 20 e poucos anos atravessou as portas do Palácio Anchieta para a primeira oportunidade de emprego. Aos poucos, Angela Maria Dantas foi tomando familiaridade com a imponência do prédio e com a presença de ilustres visitantes. Foi de copeira a auxiliar de limpeza e auxiliar de cozinha.

Hoje, aos 66 anos, Anginha, como é carinhosamente conhecida, é a chefe do "coração" do prédio histórico. Com uma vida de 41 anos de trabalho dentro do Palácio, é dela o tempero da moqueca servida como cartão de visita do Espírito Santo às autoridades recebidas na sede do governo capixaba.

A chefe da cozinha é a funcionária mais antiga de um grupo de trabalhadores que há décadas cuida do prédio erguido em 1551 pelos jesuítas. Eles são "guardiões" que conhecem cada característica e cada cantinho do imóvel melhor do que qualquer governador que já despachou no local. Entra governo e sai governo, são eles que zelam, preservam e organizam a rotina interna do edifício.

Veja o vídeo com as histórias dos funcionários mais antigos do Palácio:

"Eu tinha um primo que trabalhava aqui. Ele falou 'Angela, está precisando trabalhar?'. Eu falei 'estou'. Aí, ele arrumou para eu trabalhar aqui. E estou até hoje", conta Anginha. 

Angela Maria Dantas

Chefe de cozinha do Palácio Anchieta

"Eu que sou chefe da cozinha, eu que cuido de tudo, eu que organizo tudo. Eu tenho uma vida aqui dentro"

Anginha começou a trabalhar no Palácio no governo de Eurico Rezende (1979-1983). De cara, a jovem, criada em Santo Antônio, Vitória, impressionou-se com a grandiosidade do prédio. Além de se ambientar naquele local que parece ser exclusivo para pessoas importantes, havia outra adaptação a se fazer: superar o medo de trabalhar em um espaço com fama de mal-assombrado.

"Esse pessoal fala sobre esse negócio de assombração. Hoje, eu não acredito mais, mas eu vi. Na época que eu dormi aqui era uma 'andação' nessa escada, sobe para lá, sobe para cá. O sino da igreja batia, tocava. A fechadura da porta mexia. Nossa, eu fiquei doida", conta a cozinheira, ao retomar o dia em que precisou dormir no Palácio Anchieta no governo Gerson Camata (1983-1986).

Maria Ângela Dantas, Anjinha, cozinheira do Palácio
Maria Ângela Dantas, Anginha, é a chefe de cozinha do Palácio Anchieta. Crédito: Fernando Madeira

No início dos anos 2000, o Palácio Anchieta passou pela sua maior restauração. Cada centímetro do prédio foi verificado e Anginha se convenceu de que as almas penadas não estão por ali. À frente da grande obra, Áurea Lígia Bernardi, 58 anos, outra funcionária que há anos se dedica a manter o prédio como um símbolo histórico.

Já são 29 anos trabalhando no imóvel que fica na Cidade Alta, voltado para a Baía de Vitória. Gerente do Patrimônio Histórico do prédio, Áurea Lígia se recorda do estado precário de conservação que encontrou no local. Insetos viviam aos montes no térreo e a água da chuva escorria pelas paredes do gabinete em que os governadores decidiam os rumos do Estado.

Áurea Lígia Bernardi, gerente do Patrimônio Histórico do Palácio Anchieta
Áurea Lígia Bernardi é gerente do Patrimônio Histórico do Palácio Anchieta. Crédito: Vitor Jubini

Em 1992, no governo Albuíno Azeredo (1991-1995), ela – que já estava no governo desde 1981 – foi chefiar o setor financeiro da Secretaria de Planejamento, no Palácio. Como já era formada em Artes Plásticas, Áurea Lígia começou a atuar, nas horas vagas, em pequenos reparos no prédio, o que mudou o destino dela.

Áurea Lígia Bernardi

Gerente de Patrimônio Histórico do Palácio Anchieta

"Para mim, trabalhar no Palácio foi um divisor de águas, porque, aqui, eu me motivei"

"Depois, eu fiz Arquitetura motivada por trabalhar aqui. Eu senti essa necessidade de conhecer mais o prédio, de saber como fazer intervenções de manutenção", diz a arquiteta, que conhece cada detalhe do Palácio.

Para a grande restauração realizada entre 2004 a 2009, ela mapeou e percorreu corredores e espaços que o público que visita o prédio nem imagina que existem. É possível, por exemplo, andar a pé sob o telhado do Palácio. Paulo Jeovane Neves da Silva, 50, conhece esse espaço como a palma da mão.

Paulinho sabe a data exata em que começou a trabalhar no Anchieta, 30 de janeiro de 1998, no governo Vitor Buaiz (1995-1999). Naquele dia, sentiu-se completamente perdido. Não conhecia as peculiaridades do espaço e não sabia o que fazer no prédio. Mas, nesses 23 anos, foi se tornando, aos poucos, uma espécie de “Severino”, capaz de lidar com quase todos os problemas no funcionamento do imóvel.

"Com dois meses no emprego, eu coloquei fogo na caixa de disjuntores. Eu fui abrir a caixa, deixei a chave escapulir e cair dentro do barramento", conta. O erro gerou um curto-circuito e deixou no escuro setores que abrigavam parte da burocracia estatal. Inexperiente e com receio, Paulinho disse para a chefia que um cabo solto havia ocasionado o problema.

Paulo Jeovane Neves da Silva, responsável pela manutenção do Palácio Anchieta há 23 anos
Paulo Jeovane Neves da Silva, responsável pela manutenção do Palácio Anchieta há 23 anos. Crédito: Fernando Madeira

Um engenheiro foi chamado ao local para apurar a falha e o técnico acabou confessando o problema. "Eu falei 'não foi mesmo não, mas se eu falar que deixei a chave cair aí dentro, com dois meses de serviço, cargo comissionado, vão me mandar embora'. 'Está tranquilo, eu vou segurar essa para você.' E, depois desse dia, graças a Deus, nunca mais teve problema."

Paulinho não foi demitido e há duas décadas ajuda a manter o Palácio em perfeito funcionamento. "Sou um cara que trabalho, faço meu serviço tranquilo, falo pouco. Não gosto muito de brincadeira no serviço, porque atrapalha", ressalta Paulinho.

Com perfil parecido, sempre discreto, Wedson Leite, 57, também é responsável por outro aspecto da manutenção do prédio. Ele toma conta da limpeza e da conservação do Palácio, desde o fim do governo de José Ignácio (1999-2003).

Wedson Leite, auxiliar de limpeza, entrevistado sobre o palácio Anchieta
Wedson Leite é auxiliar de limpeza do Palácio Anchieta. Crédito: Vitor Jubini

Já se vão 18 anos trabalhando no prédio. O "seu Wedson" tem uma rotina bem definida ao longo da semana, que inclui a higienização de sacadas, varandas, salões e corredores do segundo andar da construção. É preciso criar um plano de trabalho para que a rotina do governo e das visitas não seja impactada pela manutenção, e vice-versa.

Wedson Leite

Responsável pela limpeza e manutenção do Palácio Anchieta

"Cada dia eu faço uma coisa para não atrapalhar o ambiente. Tem que trabalhar direitinho, com tudo dividido na segunda, terça, quarta, quinta, sexta"

O trabalho cuidadoso é fundamental para preservar a tinta das paredes e não danificar a mobília histórica. "É a gente ter o cuidado com as cores, com as tintas, para não bater muito a vassoura e descascar. É difícil limpar, porque tem que ter bastante cuidado, porque esses lustres estão muito antigos. Então, se quebrar uma peça dessa, vai ser difícil achar outra."

Todo esse zelo é explicado em uma frase por Hilda Cabas: "Essas paredes e tudo isso contam a nossa história". A própria senhora simpática e elegante é considerada um patrimônio do Palácio Anchieta. Aos 93 anos, Dona Hilda é a chefe do cerimonial e dá expediente no local desde a gestão de Camata.

Mas ela conheceu o prédio ainda bem antes dos anos 1980. "Eu já conhecia o Palácio. Quando eu era menina, brincava com as filhas do governador João Punaro Bley (1930-1943). Eu achava o máximo", se recorda.

Hilda Cabas, cerimonialista, entrevistada sobre o Palácio Anchieta
Hilda Cabas é a chefe do cerimonial do Palácio Anchieta. Crédito: Vitor Jubini

Anos depois, voltou ao prédio, como cerimonialista, e considera, hoje, o Palácio Anchieta como a segunda casa dela. "Eu gosto muito do Palácio. Gosto de trabalhar aqui, gosto do ambiente. Me sinto bem aqui."

Difícil foi ficar longe enquanto não havia sido imunizada contra a Covid-19. "Fiquei um ano presa em casa. Não fui a lugar nenhum. Eu fiquei presa dentro do apartamento e afastada daqui. Tinha notícias pelo telefone", diz Dona Hilda, que viveu um momento histórico recente dentro do Palácio Anchieta, foi a primeira a tomar, no local, a vacina para combater o coronavírus.

"O dia que eu tomei a vacina foi uma euforia. Fui a primeira aqui no Palácio a tomar a primeira dose. Depois, tomei a segunda. E eu estou feliz", conta a cerimonialista, que fez questão de retomar o trabalho presencial e não vê a hora de tudo voltar ao normal para organizar novamente os grandes eventos que reúnem todo tipo de gente.

Rever as pessoas dentro do prédio é um desejo não só de Dona Hilda, mas também de Paulinho, Áurea Lígia, seu Wedson e Anginha. Com trajetórias pessoais e profissionais diferentes, o trabalho de cada um deles se complementa. Os cinco se orgulham em dizer que cuidam de uma das mais importantes construções do Espírito Santo, de 470 anos, e que parte da história de suas vidas foi escrita dentro do Palácio Anchieta.

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