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Fernando Madeira
Capixapédia

Faixa branca no Penedo conta a história do "guardião" da Baía de Vitória

Marca por toda extensão da rocha, perto da linha d'água, indica as mudanças pelas quais a rocha sofreu; nela existem fatos de um passado pouco conhecido do cartão-postal

Murilo Cuzzuol

Editor adjunto

Publicado em 25 de Maio de 2022 às 08:42

Publicado em

25 mai 2022 às 08:42
Em toda a extensão do Penedo, logo acima da linha d'água existe uma faixa branca que indica onde, no passado, o nível do mar chegou a atingir. A marca ainda é um indicativo das mudanças que a própria pedra sofreu há milhares de ano Crédito: Fernando Madeira
Muito antes de ter o formato atual e sofrer com a interferência humana que mudou a geografia da região com os aterros, a Baía de Vitória já tinha o próprio "guardião". Ainda hoje, o Penedo segue oferecendo guarda para Vitória e Vila Velha, no importante canal marítimo capixaba. Posicionado na foz do Rio Aribiri, no lado canela-verde, a imponente rocha é predominantemente contemplada por quem está do lado oposto, ou seja, na Capital.
O Penedo acompanhou a transformação da ilha com os aterramentos sobre onde antes era mar, a construção do Porto de Vitória e dos terminais portuários de Peiú e Vila Velha. O rochedo, entretanto, não passou à margem das transformações. Há milhares de anos, a rocha também sofreu as próprias mudanças, a principal delas permanecendo até a atualidade.
Em uma simples caminhada pela Beira-Mar, em Vitória, nota-se uma contínua faixa branca um pouco acima da linha d'água e que se prolonga não apenas por toda a extensão do Penedo, como também prossegue em outras rochas que formam o cenário da região.

JÁ FOI MAR...

Em 2008, quando o mais completo estudo sobre o Penedo foi concluído e publicado, o geógrafo Aziz Ab'Saber contou brevemente o que ocorreu no passado para que a base da rocha fosse "pintada". Ele recorreu às marcas das variações das marés existentes para explicar que, há mais de 20 mil anos, existia ali um rio batizado com o nome de “Rio Palio de Vitória”, onde hoje se encontra a baía, em frente ao Penedo.
Neste período, o mar estava a cem metros da posição atual. Quando as temperaturas do planeta aumentaram, cerca de dez mil anos depois, o mar avançou e fez desaparecer o rio, chegando a 3,5 metros dos níveis atuais. As marcas brancas na face oeste do Penedo são referentes a este período.
O que não é citado no estudo, entretanto, são as ações sofridas pela rocha na época, sendo que elas fizeram com que a marca surgisse de fora a fora. O mestre em Oceanografia, João Koppe, detalhou que o intemperismo químico e físico sofrido pelo Penedo criou a extensa linha branca na face da pedra.

A AÇÃO DO TEMPO NO PENEDO

Existe a variação global do nível do mar e a variação relativa. Às vezes, aqui na Baía de Vitória é diferente de lá no Rio Grande do Sul, por exemplo. Ocorre que há muito tempo, há mais de 10 mil anos, ocorreu a última era do gelo. Quando acontece esse máximo glacial, a água oceânica congela. Então essa água é incorporada às geleiras nos polos, que aumentam bastante, enquanto o nível dos mares ao redor do mundo diminui.

Neste último máximo glacial, as variações ocorreram decorrentes da retração oceânica, alcançando centenas de metros abaixo do que observamos atualmente. Nesta época, na Baía de Vitória escoava um rio onde hoje temos o canal. Como não existia a limitação do mar, notavam-se fluxos continentais escoando por muitos quilômetros de onde hoje é o mar. Sendo assim, naquela época existiam diferentes pressões sobre as rochas.

Depois que o nível do mar subiu, no já período de descongelamento, junto com a variação local do nível do mar, alguns pontos aqui no Brasil chegaram a atingir 10 metros acima do que é visto na atualidade. Vitória foi um destes lugares, não nesta altura, porém acima do que se vê atualmente. 

Quando se tem a água em um nível elevado e em contato direto com a rocha, você expõe ela a diversos tipos de interações que não existem quando ela está seca. É o que citamos como intemperismo químico, que pode ser entendido como uma mudança química das propriedades da rocha ou até mesmo uma erosão de forma diferente. Existe também a interação com organismos vivos.

Com o nível do mar 3, 4 metros acima, você expõe aquele nível da rocha a esse tipo de intemperismo e ela sofre as alterações. Quando ocorre uma diminuição do nível do mar para o que observamos hoje, esta parte fica exposta. É perceptível uma zona horizontal (faixa contínua) e logo acima dela se vê o desenvolvimento de uma vegetação (bromélias). Ou seja, aquela parte (branca) pode marcar um intemperismo por conta da água que um dia já inundou aquela região.

Geologicamente, o Penedo é um cristalino, composto de granito e gnaisse. O granito é formado a partir da solidificação da lava, enquanto o gnaisse é o metamorfismo que o granito sofre. Então abre um precedente e dá uma segurança para afirmarmos que aquela porção mais branca é a evidência de uma variação do nível do mar. 

O granito e o gnaisse expostos ao intemperismo da água em outros momentos formaram essa faixa histórica onde está a região mais clara do Penedo.

João Koppe - Mestre em Oceangrafia

CHUMBADA NA MARCA

Onde atualmente os gigantescos navios acessam a Baía de Vitória, no passado existiu uma pesada corrente de ferro passada da pedra até o Forte São João, onde hoje é a Avenida Beira-Mar, para evitar que embarcações piratas entrassem pelo canal (veja a ilustração no vídeo acima). Os desgastados argolões onde ela era fixada ainda encontram-se presos na rocha, posicionados justamente na faixa branca do Penedo.
Uma das passagens mais marcantes neste sentido ocorreu em meados de 1590. Nesta época, o Penedo foi imprescindível para a vitória dos nativos sobre o invasor inglês Thomas Cavendish.
Curiosidades sobre o Penedo
De perto, é possível observar na faixa branca o que restou dos argolões onde era fixada a corrente estendida até o outro lado da Baía, na altura do Forte São João. Ela era passada para impedir a entrada de navios piratas Crédito: Fernando Madeira
Antecipando-se à investida, foi organizada uma resistência, com o acúmulo de pedras próximas ao Penedo, que também dava suporte para a corrente de ferro que se estendia à margem, desde o Forte São João, na época chamado de Morro do Vigia, fechando o canal para a passagem de navios corsários (piratas).

BATALHA DE CAVENDISH

Cavendish, inesperadamente barrado, se viu prisioneiro e perdeu dezenas de homens. Os corsários ingleses pensavam que iriam surpreender, mas acabaram surpreendidos.
Quando os ingleses, comandados por Morgan, braço direito de Cavendish, tentaram desembarcar na ilha, foram atingidos por pedras e flechas.
Ao final da batalha, corpos dos ingleses ficaram espalhados pela região, sem contar os afogados levados pela correnteza. Além dos mortos, oito ingleses da tripulação de Cavendish foram feitos prisioneiros. Coube ao almirante recolher os feridos e incendiar a outra nau, pois não tinha marinheiros suficientes para prosseguir com a invasão.

LENDAS NO PENEDO

Esta passagem está contada na cartilha do Monumento Natural Morro do Penedo. Peça crucial para a elaboração do documento, Agnaldo de Moura fala com propriedade sobre a batalha e de outras lendas que pairam sobre a região.
Morando há mais de 50 anos aos pés da rocha, o colatinense é o "guardião do Penedo". Ele também guarda boas histórias de um passado nem tão distante.
Sr. Agnaldo, guardião do Penedo
Seu Agnaldo mora há mais de 50 anos ao lado do Penedo, em Vila Velha, e conhece como poucos todas as histórias, lendas e curiosidades sobre este cartão-postal capixaba Crédito: Fernando Madeira
"Trabalhava como catraieiro, atravessando as pessoas de Paul para Vitória, e todos os marinheiros que chegavam ouviam muitas lendas. Não só do Penedo, como também da Pedra do Ovo, que fica ao lado. Ela se chama assim porque diz a lenda que, se o marinheiro atingisse a pedra com um ovo ou uma moeda, conseguiria arrumar uma namorada ou uma grande paixão aqui no Estado. Isso era contado de muito antes, então a gente incentivava os marinheiros a perguntarem. Trazíamos até aqui, eles jogavam uma moeda na pedra do ovo, com a esperança de arrumar um grande amor", conta Agnaldo.
Outra lenda que cerca o Penedo é a de que marinheiros que chegavam à região arremessavam batatas do convés em direção à marca branca da pedra. Essa oferenda era feita para evitar que os navios não fossem engolidos.
Estas histórias e a própria marca podem ser conferidas bem de pertinho. É possível, inclusive, chegar ao local de barco e subir a  plataforma que fica logo abaixo dos argolões. Sem a presença da corrente, atualmente a base é utilizada por praticantes de rapel que exploram o Penedo.

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