ASSINE

"Vamos continuar", diz Mandetta após Bolsonaro avaliar demiti-lo

Ministro da Saúde disse que auxiliares chegaram a esvaziar gavetas, inclusive a dele. Presidente avaliava demiti-lo. Após encontro, segundo ministro, governo "se reposiciona no sentido de ter mais união"

Publicado em 06/04/2020 às 20h41
Atualizado em 06/04/2020 às 22h34
Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta durante coletiva de Imprensa no Palácio do Planalto sobre as ações de enfrentamento no combate ao Covid-19
Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta durante coletiva de Imprensa no Palácio do Planalto sobre as ações de enfrentamento no combate ao Covid-19. Crédito: Isac Nóbrega/PR

Após reunião com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e outros ministros, o titular da pasta da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que continua no governo. Nesta segunda-feira (06), o presidente avaliava demitir o subordinado.

"Nós vamos continuar, porque continuando nós vamos enfrentar nosso inimigo, que tem nome e sobrenome: covid-19. Médico não abandona paciente, eu não vou abandonar. Mas as condições para os médicos precisam ser as melhores", afirmou, em pronunciamento à imprensa. Ele não respondeu a perguntas.

"Não temos nenhum receio da crítica. A crítica construtiva enobrece. O que nós temos muita dificuldade é quando em determinadas situações ou impressões, a crítica não vem no sentido de construir, mas trazer dificuldade no ambiente de trabalho", disse Mandetta. Na semana passada, Bolsonaro afirmou que falta humildade ao ministro. No domingo (05) chegou a dizer que poderia usar o poder da caneta contra ministros que viraram "estrelas".

Nesta segunda a temperatura subiu. O texto da exoneração do ministro já estava sendo redigido pelo Planalto, como revelou o jornal O Globo. Mandetta contou que o trabalho rendeu pouco durante o dia no ministério e que auxiliares chegaram a esvaziar gavetas, inclusive a do próprio Mandetta.

Depois, Bolsonaro convocou uma reunião com todos os ministros. Mandetta, que conta com o apoio do Congresso e de militares, compareceu. E saiu dizendo que fica.

"Ciência, disciplina, foco, apesar dos pesares", repetiu o ministro no pronunciamento desta segunda, quanto a medicamentos em teste para o combate à covid-19, como a hidroxicoloquina. A substância é mencionada por Bolsonaro como uma possível cura, mas não há evidências científicas disso por enquanto.

O presidente tem divergido, entre outras coisas, das medidas de isolamento social defendidas por Mandetta para combater a pandemia do coronavírus. 

Bolsonaro adotou um discurso contrário ao fechamento de comércio nos estados, enquanto Mandetta defende que as pessoas fiquem em casa. 

Luiz Henrique Mandetta

Ministro da Saúde, nesta segunda-feira (06), após se reunir com Bolsonaro

"Vamos tocar em frente, como um velho boiadeiro tocando a boiada, estrada eu sou. Abraço para o meu amigo Almir Sater, lá da minha terra"

NÚCLEO MODERADO AGIU

Integrantes do chamado núcleo moderado do governo, que inclui militares, conversaram nesta segunda-feira desde cedo com Bolsonaro na tentativa de demovê-lo da ideia de exonerar Mandetta no curto prazo. Em conversas reservadas, o presidente chegou a dizer que a situação estava insustentável.

Num primeiro momento, a pressão fez efeito. Ministros de fora do Planalto estavam apreensivos com a reunião ministerial convocada por Bolsonaro para o final da tarde desta segunda, com receio de que ele anunciasse a saída do titular da Saúde.

COMO FOI A REUNIÃO

O encontro teve um clima tenso, segundo relatos, mas o presidente não deu sinais de uma exoneração próxima.

Na reunião, Bolsonaro e Mandetta expuseram divergências sobre o uso da cloroquina em casos de coronavírus.

O presidente disse que havia conversado com especialistas que defendiam o uso do remédio em estágio inicial da doença.

O ministro da Saúde, por sua vez, defendeu que não há ainda protocolos seguros sobre o uso do remédio.

Bolsonaro não refutou e ouviu de ministros apelos para que a equipe mantenha a união.

"Eu acho que a coisa vai se ajustando", disse à reportagem o vice-presidente, Hamilton Mourão.

Vice-presidente da República, Hamilton Mourão
Vice-presidente da República, Hamilton Mourão defende as medidas de isolamento apoiadas por Mandetta e governadores. Crédito: Isac Nóbrega/PR

IMPREVISÍVEL

Apesar de não ter dado sinais na reunião de que vai demitir o ministro, aliados de Bolsonaro o consideram imprevisível e por isso buscam alternativas para o cargo. A ideia é encontrar um nome favorável ao uso da hidroxicloroquina.

A ideia inicial de Bolsonaro era exonerar o auxiliar presidencial apenas em junho, de modo a não correr o risco de ser responsabilizado sozinho caso o sistema de saúde entre em colapso durante a pandemia da doença.

Em conversas reservadas nesta segunda-feira, no entanto, o presidente disse que não tinha como manter o auxiliar no cargo. Para Bolsonaro, ele o tem desafiado em declarações públicas e não conta mais com a confiança do presidente.

Sem a presença de Mandetta, o presidente almoçou com os quatro ministros palacianos e com o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS). O parlamentar, cotado para o posto e defensor da hidroxicloroquina e do isolamento vertical, tem ajudado o presidente em uma eventual transição da pasta.

Além deles, também estava presente no encontro a médica Nise Yamaguchi, que defende o uso de hidroxicloroquina para casos de coronavírus em estágio inicial.

MAIA E ALCOLUMBRE

Na semana passada, Bolsonaro estava prestes a demitir Mandetta, mas foi demovido por aliados próximos. Nesta segunda-feira, ele passou a considerar uma exoneração até o final da semana, mas recebeu recados negativos do Poder Legislativo.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), já informaram ao Planalto que apoiam a permanência do ministro. O receio da articulação política é de que uma demissão possa estimular retaliações em votações do governo.

A Gazeta integra o

Saiba mais
Jair Bolsonaro Coronavírus Luiz Henrique Mandetta

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.