Publicado em 10 de dezembro de 2023 às 10:56
O governo federal contabilizou 4.879 violações de liberdades fundamentais por líderes religiosos no Brasil entre agosto de 2022, quando começou o levantamento, e novembro de 2023. Relatos foram feitos por alvos ou testemunhas à ouvidoria do hoje Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.>
A crença da vítima não está presente em todas as ocorrências. Dentre as que possuem, destacam-se protestantismo (151) e catolicismo (70). Não há dados de períodos anteriores, para comparação.>
Os casos descritos envolvem desrespeitos a direitos sociais, vida, liberdade, integridade e igualdade. Episódios de LGBTfobia, por exemplo, chegaram a 153.>
Matheus Ferreyra, 24, é um retrato disso. Morador do Recife, capital pernambucana, ele foi expulso de uma congregação por ser gay.>
>
O vendedor cresceu como evangélico. Frequentou templo da infância à maioridade sob influência familiar. Segundo ele, todos notavam sua homossexualidade e, por meio de orações, suplicavam uma suposta cura. Logo, ele agia da mesma maneira. "Pedia muito a Deus para arrancar de mim o desejo por homens", lembra.>
Seu pastor encontrou uma companheira para o jovem e insistiu na viabilidade desse relacionamento durante seis meses. Não funcionou, e o sacerdote expulsou Matheus do culto. Hoje, ele frequenta a terapia para tratar sequelas daquela época.>
Após receber denúncia --que pode conter mais de uma violação--, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania examina seu teor e a encaminha às autoridades competentes.>
Há, no entanto, um empecilho até essa última etapa, avalia Gustavo Coutinho, da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transexuais). Ele diz que muitos cidadãos preferem esconder as agressões homofóbicas sofridas pela possibilidade de julgamento no círculo religioso e até no seio familiar, muitas vezes parte do primeiro grupo.>
"Porém, não devemos culpar a religião por todo o mal. O verdadeiro problema é o fundamentalismo", afirma. Coutinho diz ser importante incentivar expressões acolhedoras da fé.>
Noite de sábado, 11 de novembro deste ano. Uma fila foi formada da porta ao púlpito da Igreja Cristã Contemporânea, no Tatuapé, zona leste paulistana. Era a recepção de novos membros, que recebiam abraços dos enfileirados. Você é amado, diziam todos aos recém-chegados.>
A igreja acolhe pessoas não heteronormativas. Aos montes, elas chegam todas as semanas em busca de aceitação, palavra de ordem no espaço. "Sorria, Jesus te aceita. Este é o lema da igreja. Ninguém precisa mudar, precisa ser respeitado", diz o fundador, pastor Marcos Gladstone, 47.>
O líder religioso criou sua congregação em 2002, após uma experiência penosa compartilhada com muitos de seus fiéis: ser injuriado em um templo por ser homossexual. Diz ter sofrido muito com a situação, da qual teve dificuldades de sair. Até uma esposa arranjou para tentar se encaixar.>
"Viver no faz de conta é impossível. Com a minha voz, quero incentivar os seres humanos a mostrarem sua verdade", diz Gladstone, casado com outro homem há mais de uma década e pai de quatro filhos. "Apesar do meu esforço, sabemos que a esfera religiosa é ainda muito dura com LGBTs, e histórias de sofrimento se multiplicam", acrescenta.>
Uma dessas histórias foi vivida pelo publicitário Lucas, 26. Ele prefere esconder seu sobrenome. Morador da cidade de São Paulo, ele se descobriu bissexual na adolescência. Ainda jovem, temia a opinião dos correligionários protestantes sobre o assunto.>
Ao falar, fiscalizava a entonação da própria voz para soar viril. Andando, mantinha postura rígida, como entendia que deveria ser a locomoção masculina. Preferências musicais também eram omitidas. Nada de falar sobre divas do pop e seus novos álbuns e interpretações bombásticas. Isso, tinha certeza, o entregaria.>
Em 2017, Lucas conheceu um rapaz. Os encontros eram cada vez mais frequentes. Alguém os avistou e delatou o caso à igreja que ele frequentava. Lá, surgiram ainda fofocas sobre romances com outros homens.>
O pastor julgou ser usual a atração por semelhantes. Apenas mais um pecado dentre tantos. Se Lucas abdicasse da prática, seria perdoado e poderia frequentar o templo.>
Inicialmente, o jovem aceitou esses termos, mas passou a sentir crescente desconforto. Decidiu então abandonar a igreja, mas não o credo. "Deus ama todas as suas criações e as moldou como são", diz.>
A ouvidoria do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania possui diversos canais para denunciar ataques, perseguições a grupos minoritários e outros tipos de violações. Elas podem ser formalizadas de maneira anônima e ganham protocolo para acompanhamento.>
O Disque 100 é o canal para atendimento via telefone. Também é possível buscar ajuda pelo aplicativo Direitos Humanos Brasil, pelo WhatsApp --por meio do número (61) 99656-5008-- ou pelo Telegram, digitando "Direitoshumanosbrasil" na busca da plataforma.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta