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Dados de ONG

Brasil pós-Bolsonaro tem maior avanço mundial em ranking de liberdade de expressão

Áreas como participação cívica e liberdade acadêmica avançaram, afirma relatório com dados de 161 países

Publicado em 21 de Maio de 2024 às 10:37

Agência FolhaPress

Publicado em 

21 mai 2024 às 10:37
SÃO PAULO - O Brasil registrou o maior avanço mundial em um relatório sobre liberdade de expressão após a saída de Jair Bolsonaro (PL) da Presidência da República.
O Global Expression Report 2024, divulgado pela organização Artigo 19, com sede em Londres, traz dados relativos a 2023 para 161 países, classificados em cinco categorias: aberto, menos restrito, restrito, altamente restrito ou em crise.
Com 81 pontos, em uma escala de 0 a 100, o Brasil passou da 87ª posição para a 35ª, saindo de restrito para aberto. O avanço foi de 26 pontos.
Liberdade de expressão, protesto, manifestação
Brasil registrou melhora em 17 dos 25 indicadores sobre liberdade de expressão avaliados  Crédito: Freepik
Para calcular essa pontuação, a organização seleciona 25 indicadores de seis áreas da base de dados V-Dem. A base do instituto sueco de mesmo nome tem cerca de 600 indicadores para cada país, cuja avaliação é feita por cerca de 4.000 especialistas ao redor do mundo.
As áreas levadas em conta pela Artigo 19 são: leis e sua aplicação; direitos digitais; liberdade de mídia, participação política; participação cívica; e liberdade política e privada.
Em 17 dos 25 indicadores avaliados, o Brasil registrou melhora em 2023, primeiro ano do terceiro mandato de Lula (PT), em relação a 2022, último ano de Bolsonaro.
O avanço do país se deu em temas como participação de organizações da sociedade civil; liberdade de publicação de conteúdo político; monitoramento governamental da internet; transparências das leis e sua aplicação; violência política e liberdade religiosa e acadêmica.

Confira ranking dos melhores e piores países, segundo ONG

Os 5 melhores 
  • 1. Dinamarca - 95 pontos 
  • 2. Suíca - 93 pontos 
  • 3. Suécia - 93 pontos 
  • 4. Bélgica - 92 pontos 
  • 5. Estônia - 92 pontos
Próximos ao Brasil 
  • 33. Reino Unido - 81 pontos 
  • 34. Eslováquia - 81 pontos 
  • 35. Brasil - 81 pontos 
  • 36. Malta - 81 pontos 
  • 37. Honduras - 80 pontos 
  • 38. Taiwan - 80 pontos
Os 5 piores 
  • 157. Turcomenistão - 1 ponto 
  • 158. Belarus - 1 ponto 
  • 159. Nicarágua - 1 ponto 
  • 160. Eritreia - 1 ponto 
  • 161. Coreia do Norte - 0 pontos
Nos últimos anos, o STF (Supremo Tribunal Federal) e o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) enfrentaram questionamentos por decisões relacionadas à liberdade de expressão.
Essas críticas ganharam combustível no bolsonarismo em abril deste ano ao serem endossadas e amplificadas pelo empresário Elon Musk, dono do X (antigo Twitter).
Chamado por Bolsonaro de "mito da liberdade", o bilionário condenou as decisões de remoção de conteúdo pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF e do TSE, e afirmou que iria descumpri-las — o que, segundo o braço brasileiro do X, não aconteceu.
Em reação, o ministro incluiu Musk no inquérito das milícias digitais. Moraes tem defendido sua atuação sob o argumento de que liberdade de expressão não equivale a salvo-conduto para agressões e discursos preconceituosos ou antidemocráticos.
O governo Lula, por sua vez, entrou na mira da oposição após anúncio de investigação da Polícia Federal sobre fake news relacionadas à tragédia no Rio Grande do Sul.
Deputados bolsonaristas dizem ver na medida uma tentativa de cerceamento de discursos. Já o governo afirma que busca combater a desinformação.
Co-diretor executivo da Artigo 19 no Brasil, Paulo José Lara avalia que a melhora do país tem forte ligação com o fim da gestão Bolsonaro, marcada por ataques a cientistas, jornalistas e à sociedade civil organizada em geral.
Relatórios anteriores da organização sobre a gestão Bolsonaro já haviam rebaixado a pontuação brasileira citando ataques a jornalistas, desinformação propagada por agentes do governo durante a pandemia de Covid e falta de transparência de dados públicos.
Para Lara, o governo Lula levou a uma normalização institucional que permitiu ao Brasil melhorar no tema, tanto em relação à liberdade jornalística quanto a outras formas de expressão.
Ele destaca especialmente a área de participação cívica, mencionando a retomada de conselhos multissetoriais e grupos consultivos
Por outro lado, o codiretor avalia que também há pontos negativos tanto na atuação da gestão petista quanto na do Judiciário em relação à liberdade de expressão.
A primeira lacuna do governo federal teria sido não conseguir implementar medidas efetivas contra desinformação.
Embora tenha tentado articular a aprovação de um projeto de lei contra desinformação no Congresso Nacional, o chamado PL das Fake News, a proposta não avançou.
Ele afirma ainda que, mesmo com a elogiável, em sua opinião, criação de pastas como a de Direitos Humanos e dos Povos Originários, ainda é preciso implementar políticas concretas e com financiamento robusto para proteger comunicadores, defensores ambientais e de direitos humanos.
Por fim, Lara critica o que vê como falta de disposição do governo para a democratização dos meios de comunicação, especialmente rádio e televisão.
Ele destaca que o relatório avalia apenas a independência do Judiciário, sem entrar no mérito de suas decisões. Ainda assim, ele avalia que falta ao Poder o estabelecimento de parâmetros para decisões relativas à liberdade de expressão.
"Isso faz com que o Judiciário tenha resoluções erráticas e muitas vezes até contraditórias quando é instado a opinar", diz. Por outro lado, ele diz que os tribunais ficaram mais expostos pela ausência de uma regulamentação legal e pela situação atípica da articulação golpista dentro do governo Bolsonaro.

No mundo

Com a subida de posição, o Brasil ficou em sexto lugar nas Américas em relação à liberdade de expressão, atrás de Canadá (14ª), Argentina (15ª), Estados Unidos (26ª), Chile (27ª) e Jamaica (28ª).
Lideram o ranking global Dinamarca, com 95 pontos, seguida de Suécia e Suíça, ambas com 93, e depois por Bélgica, Estônia e Noruega, as três com 92.
A pior posição global é a da ditadura comunista da Coreia do Norte, com pontuação nula. China, Turcomenistão, Belarus, Nicarágua e Eritreia completam o conjunto de países na lanterna do ranking.
Uma importante novidade da edição atual do relatório foi a mudança de status da Índia, sob o governo do direitista Narendra Modi, de altamente restrito para em crise.
Com isso, o documento considera que mais da metade da população mundial (53%) vive em países em crise de liberdade de expressão. Só 23% habitam países com expressão livre ou menos restrita.

Áreas em que o Brasil melhorou, segundo o relatório

Participação cívica
  • Consulta a organizações da sociedade civil
  • Liberdade das organizações da sociedade civil
  • Engajamento da sociedade
Direitos digitais
  • Liberdade em relação prisão por conteúdo político
  • Liberdade em relação a filtros governamentais na internet 
  • Liberdade em relação a monitoramento governamental de mídia social
Leis e sua aplicação
  • Leis transparentes com aplicação previsível
Liberdade de mídia
  • Liberdade contra censura governamental
  • Liberdade contra assédio a jornalistas
  • Liberdade contra autocensura da mídia
Participação política
  • Liberdade contra assassinato político
Liberdades privadas e políticas
  • Liberdade de expressão acadêmica e cultural
  • Liberdade de intercâmbio acadêmico
  • Liberdade de discussão para homens
  • Liberdade de discussão para mulheres
  • Liberdade de reunião pacífica
  • Liberdade de religião

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