Sustentabilidade e café, uma soma que vem garantindo mudanças no mercado local, nacional e internacional, também convenceu o produtor rural e empresário Braz Veloso Pianissoli a incluir métodos conscientes em todas as etapas de produção do Café Veloso. Uma decisão que atualmente é valorizada pelos consumidores e reconhecida por selos e certificações que dão credibilidade ao produto final.
A empresa de Veloso, além de atender às especificações do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), ainda cumpre os requisitos da OFI (Olam Food Ingredients), conquistando certificados que validam os cuidados sustentáveis adotados em sua propriedade, o Sítio da Barra, em Nova Venécia, no Noroeste do Espírito Santo. A OFI é uma gigante global da cadeia de alimentos, e é dona de uma fábrica de café solúvel em Linhares, desde 2025.
Com a ajuda da OFI ampliamos as metas de sustentabilidade, realizando pequenas correções para adequar os processos e melhorar nossa qualidade.
Braz Veloso Pianissoli produtor rural e empresário
E essa busca pelo aperfeiçoamento ainda conta com a ajuda do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas do Espírito Santo (Sebrae-ES) e das Cooperativas Agrária dos Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel) e Agropecuária Centro Serrana (Nater Coop).
Com o Sebrae-ES vieram os aprendizados de gestão, o que ainda resultou na implantação de um sistema de rastreabilidade que garante a identificação da origem do café do plantio até o empacotamento. Com as cooperativas, vêm as parcerias nas compras e nas condições de pagamento, além dos eventos e das trocas com outras empresas, assim como o selo 4C de qualidade e sustentabilidade da produção.
O Incaper, com qualificação e orientação, também contribuiu na expansão da rede de relacionamentos para a Café Veloso. O mesmo ocorreu com a aproximação da OFI, que ainda ajudou na compreensão da importância da sustentabilidade, incluindo a empresa na lista de produtores certificados pela Rainforest Alliance Certified, um dos principais reconhecimentos do setor.
A cada novo curso e novo aprendizado, também ocorreu uma nova mudança na produção do nosso café.
Braz Veloso Pianissoli produtor rural e empresário
Aos poucos, o que inicialmente era uma opção se tornou a regra, com a sustentabilidade presente em todas as etapas. E o esforço desse trabalho foi recentemente reconhecido durante a primeira edição do Concurso de Cafés de Qualidade de Nova Venécia e Vila Pavão, com o empresário levando o Prêmio Especial de Sustentabilidade.
De acordo com o coordenador do Centro Regional de Desenvolvimento Rural Noroeste do Incaper, Wellington Marré, há necessidade de valorizar quem já pratica a sustentabilidade na propriedade e também quem vem tentando implementar essa cultura junto aos produtores. E não mais pensando só na produtividade e qualidade, mas também na sustentabilidade.
Até porque boa parte do café produzido no Espírito Santo é para exportação. Entre janeiro e agosto deste ano, foram exportadas 4,3 milhões de sacas, 58% acima do comparativo com 2025. “E o mercado externo busca e valoriza, cada vez mais, cafés mais sustentáveis”, reforça Marré.
“Vou torrar café puro e vir com torra média, nem queimado nem claro.” Essa foi a decisão de Braz Veloso após participar de um evento sobre café, em Minas Gerais. Daí surge o Café Veloso, há quatro anos, com toda a produção ocorrendo no Sítio da Barra, em Nova Venécia, desde o plantio do café até a moagem e embalagem.
As vendas começaram há três anos. Primeiramente, nos supermercados mais próximos, até começar a expandir, a partir de 2025, para outros de São Gabriel da Palha, Vila Valério, São Domingos, Colatina, Pancas, Boa Esperança, Pinheiros, Montanha, Pedro Canário, São Mateus e Jaguaré.
A cada ano mais um passo era dado. E aos poucos, acompanhando o crescimento da produção, a marca expandiu sua área de atuação, projetando chegar a toda a região Norte do Espírito Santo ainda em 2026, muito por conta do lançamento do produto gourmet, que chega aos mercados a partir do dia 20 de outubro.
180 QUILOS
de café, por hora, é a capacidade do torrador no Sítio da Barra
“No começo, o torrador era de quatro quilos, depois passamos para um de 20 quilos, mas demorava uma hora para torrar. Aí compramos um que suporta 30 quilos de café, mas também era lento. Até conseguir um que torra 180 quilos por hora”, relata o produtor rural.
Mas o cuidado no crescimento da empresa é apenas uma das estratégias adotadas. A empresa organizou o romaneio (entrada e saída de grãos) do secador e associou o serviço à rastreabilidade da lavoura, o que ajuda a identificar a origem de cada café moído e empacotado, garantindo a qualidade. Passo dado com ajuda do Sebrae-ES, quando Veloso buscou apoio para aperfeiçoar a gestão do negócio.
Em outro passo dado em direção à sustentabilidade, desta vez com a OFI e por intermédio das cooperativas, o empreendedor adotou os produtos biológicos, em substituição aos agrotóxicos, para cuidar da lavoura.
De acordo com o empresário, o uso da multiplicação de fungos contra insetos, preservando as plantas e reduzindo em 70% a quantidade de agrotóxico, melhorou tanto a produção e a qualidade do café que ele já pensa em fazer uma fábrica de biológicos na propriedade.
E o terceiro passo marcante rumo à sustentabilidade, segundo Veloso, foi a reorganização na fornalha, levando a palha do café de volta para a lavoura, agora usada como adubo.
As mudanças podem vir no manejo da lavoura, na conservação do solo e da água, na nutrição das plantas, na irrigação, no pós-colheita, na qualidade do café, na secagem, na rastreabilidade e na adequação ambiental. E todas essas possibilidades são oferecidas pelo projeto Cafeicultura Sustentável.
Iniciado em 2024, pela Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca do Espírito Santo (Seag) e pelo Incaper, o projeto já atendeu a 7,2 mil propriedades cafeeiras no Espírito Santo, tanto do café conilon quanto do arábica. E a meta é chegar a 8 mil em 2027.
A partir desse projeto, foram definidos 39 indicadores de sustentabilidade na cafeicultura: 13 ambientais, 13 sociais e 13 econômicos. E a partir do diagnóstico de cada propriedade, que tem a evolução acompanhada de perto por técnicos do Incaper, são definidas ações de acordo com suas necessidades.
O proprietário tem suporte com assistência técnica e extensão rural, além de capacitações e dias de campo. Todo o trabalho é realizado a partir das unidades de referência, que são usadas para apresentar e difundir tecnologias e boas práticas junto aos produtores.
Queremos a evolução das propriedades de forma integrada, conciliando produção, qualidade e avanços nos aspectos ambientais, sociais e econômicos.
Wellington Marré coordenador do Centro Regional de Desenvolvimento Rural Noroeste do Incaper
Segundo Marré, que também coordena o projeto Cafeicultura Sustentável na região Norte do Estado, os produtores acompanhados pela equipe do Incaper estão atingindo 70% dos indicadores ambientais, 70% dos econômicos e 80% dos sociais.
Para melhorar esses dados, ele cita a importância do produtor se manter atualizado, buscando capacitações na produção e na análise de nutrição equilibrada, por exemplo. Também recomenda a instalação de depósito exclusivo para agrotóxicos, isolado de outros produtos, além da correção no tratamento de esgoto doméstico das propriedades.
Essas e outras exigências necessárias, explica Marré, contribuem para que os indicadores usados, hoje, no Espírito Santo, acompanhem o nível exigido pelos exportadores mundiais. Por isso, também, o Incaper entrega um certificado aos produtores que atingem classificações médias ou altas dentro do projeto.
E o Cafeicultura Sustentável também incorpora iniciativas de cafeicultura regenerativa, com práticas voltadas à cobertura e conservação do solo, aumento da matéria orgânica, diversificação vegetal, proteção dos recursos hídricos e estímulo à biodiversidade.
A gente avalia do chão à xícara. Tudo o que está dentro da porteira.
Wellington Marré coordenador do Centro Regional de Desenvolvimento Rural Noroeste do Incaper
Mesmo o Cafeicultura Sustentável sendo um projeto do Estado, foi a partir de uma iniciativa do Sebrae-ES que os primeiros frutos puderam ser colhidos. Como lembra a analista Jhenifer Soares, em 2023 foi contratada uma empresa de mercado para fazer um trabalho voltado ao desenvolvimento da cafeicultura no Espírito Santo.
“O projeto já pensava em um programa com foco na sustentabilidade e melhoria da qualidade”, relata Soares. E ainda tinha o objetivo de levar o reconhecimento dos produtores para fora do Estado e do país. “A partir dele, foi lançado o programa do Governo (do Estado), buscando o desenvolvimento sustentável da cafeicultura”, conclui.
Essa preocupação mais sustentável sobre o café veio a partir de pesquisas realizadas durante o período da pandemia da Covid-19, entre 2020 e 2022. “Um dos dados apontava que 93% dos entrevistados queriam produtos mais preocupados com o meio ambiente”, explica a analista do Sebrae-ES.
O mercado buscava essa mudança e ainda recebia influência de um público mais novo, já que o consumo do café entre jovens passou a crescer. “Tudo isso colabora para que a cafeicultura se interesse em produzir com mais sustentabilidade”, reforça Jhenifer Soares
A partir dessas informações, cursos, oficinas, palestras e consultorias passaram a ser oferecidos pelo Sebrae-ES. A entidade ainda lançou junto com a Seag a marca "Sustainable Coffee - Espírito Santo", em novembro de 2025, promovendo a cafeicultura capixaba como atividade sustentável, durante evento internacional. Ou seja, uma variedade de serviços e ações que atendem ao produtor tanto da porteira para dentro quanto da porteira para fora.
Temos cursos de torra, na área de baristas, para conhecer o ponto certo do café, de mercado para ajudar na marca e na comercialização. Não falta opção.
Jhenifer Soares analista do Sebrae-ES
Até uma consultoria nova, focada na sustentabilidade da cafeicultura, o Sebrae-ES começou a oferecer, investindo mais de R$ 300 mil nos últimos três anos – sendo que 70% da consultoria é custeada pelo Sebrae-ES. Até setembro de 2026 já foram concluídos 17 atendimentos, quase três vezes mais do que em 2025, com sete consultorias concluídas.
“O objetivo é que o produtor consiga o certificado Rainforest Alliance Certified, a partir das orientações da consultoria, para se adequar a parâmetros internacionais”, explica Soares. Esse é o mesmo certificado conquistado pelo Café Veloso.
Outra conquista de Braz Veloso, em práticas sustentáveis na cafeicultura, foi a do certificado 4C (Código Comum para a Comunidade Cafeeira). Essa certificação é reconhecida como uma das principais do setor, com critérios estabelecidos para atender às exigências de compradores globais, a exemplo do respeito à legislação trabalhista, da capacitação e do treinamento, da preservação de áreas ambientais, do uso consciente de defensivos e da conservação do solo e da água.
Entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, por exemplo, cerca de 1 mil produtores vinculados a Cooabriel – tanto os que são geridos pela cooperativa dentro do protocolo internacional 4C quanto os que recebem suporte da Nestlé, incluindo o Café Veloso – receberam R$ 2,2 milhões em premiações.
Para Edimilson Calegari, gerente corporativo de comercialização e mercado da Cooabriel, a certificação traz benefícios tangíveis, como o aumento da competitividade e a abertura de novas fronteiras comerciais, mais exigentes e onde a demanda é maior por produtos sustentáveis.
A certificação é obtida por meio de auditorias, o que contribui para demonstrar que o produto atende a essas exigências, gerando mais confiança ao mercado.
Edimilson Calegari gerente corporativo de Comercialização e Mercado da Cooabriel
Assim como a Cooabriel, a Nater Coop também se preocupa com a qualidade e sustentabilidade na cafeicultura capixaba junto ao mercado internacional. "Nosso papel é fazer o café do cooperado chegar ao mundo com qualidade e valor justo”, pontua Marcelino Bellardt, CEO da Cooperativa Agropecuária Centro Serrana.
E segundo a cooperativa, quando se garante orientação técnica, boas práticas, compra da produção e acesso a mercados, a renda de milhares de famílias rurais capixabas fica mais estável, principalmente quando a produção é sustentável.
Sustentabilidade, para nós, é a lavoura produtiva, o meio ambiente preservado e a família no campo com renda.
Marcelino Bellardt CEO da Nater Coop
Os cooperados já exportam para mais de 40 países, atingindo a marca histórica de um milhão de sacas de café verde comercializadas em 2023. Como ajuda, a Nater Coop ainda oferece uma estrutura que inclui seis armazéns e dez pontos de compra, além de silos verticais, em Nova Venécia e Ibiraçu, e de uma selecionadora eletrônica que avalia peso, tamanho e demais características do grão.
Com qualidade, segurança e agilidade, o caminho para a exportação fica mais garantido. Para tal, a estratégia da cooperativa ainda inclui levar até o cafeicultor, por meio das 42 lojas agropecuárias que mantém no Espírito Santo (34) e em Minas Gerais (8), os insumos, fertilizantes, as sementes, a irrigação e as máquinas de que precisa.
Contudo, para além da estratégia econômica, agregar a sustentabilidade à cafeicultura também contribui para avanços em termos de saúde e longevidade dos trabalhadores.
"Esse processo envolve a realização de um trabalho feito dentro de boas práticas, como uso correto de EPI e uso racional de defensivos, pensando na proteção das pessoas, a maioria de famílias produtoras, já que grande parte da cooperativa está na agricultura de base familiar”, destaca o presidente da Cooabriel, Luiz Carlos Bastianello.
R$ 2,2 MILHÕES
Em premiações para mais de 1 mil cooperados da Cooabriel.
E além da responsabilidade ambiental, já que a “produção sustentável é pensada para deixar um meio ambiente melhor para as próximas gerações”, como pontua Bastianello, a sustentabilidade também contribui com uma remuneração adequada dos envolvidos no processo produtivo.
Na Cooabriel, por exemplo, o produtor certificado pelo protocolo 4C recebe o diferencial de R$ 10,00 por saca de café produzida em conformidade com os critérios do programa internacional.