Há algo profundamente inquietante quando aquilo que deveria provocar vergonha passa a ser exibido com orgulho. Nos últimos dias, uma trend do TikTok tem mostrado meninos “treinando” para quando receberem um “não” de meninas. Os vídeos mostram encenações de agressões diversas, muitas vezes tratadas como humor.
Pode parecer apenas mais uma moda da internet, mas talvez ela revele algo mais profundo sobre como ainda lidamos com o desejo, a frustração e os limites nas relações.
As relações entre as pessoas são mediadas por valores morais e éticos que orientam a forma como tratamos o outro, mantendo presente que nem tudo o que desejamos nos é devido e que a liberdade de cada pessoa encontra limites na liberdade do outro.
Esses critérios éticos de convivência são deturpados nesses vídeos que viralizam nas redes, banalizando a violência contra mulheres e transformando a agressão em entretenimento. O que antes provocaria constrangimento passa a ser exibido com orgulho e disputado em forma de curtidas.
Essa trend não surge do nada, ela ecoa narrativas sociais já existentes. E ela nos convoca a algumas reflexões.
Precisamos falar de vergonha. Não a vergonha de existir ou de sentir, mas a vergonha moral: aquela que funciona como um limite ético silencioso que nos impede de ter comportamentos que humilham, ferem ou diminuem outras pessoas. Nesse sentido, ter vergonha sinaliza que percebemos quando nossas ações traem valores que consideramos importantes e reconhecemos que nossas ações têm consequência sobre os outros. Portanto, a vergonha moral sustenta o respeito entre as pessoas.
Precisamos voltar a ter vergonha. Vergonha de saber que, em nosso país, os registros indicam que, na média, quatro mulheres foram assassinadas por dia no país no último ano. Repito: quatro mulheres por dia!
Vergonha de perceber que as plataformas, na busca por engajamento, continuam se omitindo frente a vídeos com conteúdo violento, que estimulam o discurso misógino e a banalização da violência contra as mulheres.
Vergonha de usar o humor agressivo para lidar com a frustração e transformar violência em entretenimento.
Vergonha de viver em uma sociedade que ainda reforça a cultura na qual o “não” feminino não é aceito e, por meio desses exemplos, pode influenciar jovens que estão formando suas ideias sobre relacionamento.
Precisamos ter vergonha de todas as atitudes machistas. E entender que o problema nunca foi o “não”. O problema é uma cultura que ainda ensina alguns meninos a acreditar que o “não” feminino não deveria existir.
Ou seja, uma sociedade mais segura para as mulheres começa por ensinar os meninos a respeitar o “não” ao invés de incentivá-los a conquistar a qualquer custo. Ajudá-los a entender que a forma como reagimos à frustração revela muito sobre a nossa (i)maturidade. E criar ambientes seguros (em casa, nas escolas, nos espaços coletivos, nas igrejas e templos) para que eles possam acessar suas emoções e construir um caminho de empatia que promova o seu amadurecimento moral.
Precisamos ensinar às novas gerações que:
- o seu desejo é somente o seu desejo. E não é nem deve ser maior do que o desejo da outra pessoa.
- o seu pedido é somente um pedido. E a outra pessoa tem a liberdade de responder como quiser, inclusive com um “não”.
- a sua frustração é resultado da sua expectativa. Não é responsabilidade da outra pessoa.
- o seu valor não está na quantidade de conquistas afetivas, mas em como você constrói relações mais respeitosas com as pessoas ao seu redor.
- a maturidade nas relações não aparece quando tudo dá certo, mas quando sabemos lidar com o “não”.
Saber lidar com o “não” significa desenvolver a capacidade de lidar emocionalmente com a frustração amorosa. Porque desejar alguém é humano, mas respeitar quando esse alguém diz “não” é o que verdadeiramente nos humaniza.
No fundo, a questão é simples: desejar é humano, frustrar-se é inevitável, mas respeitar o limite do outro é uma escolha moral.
Quando a vergonha moral é substituída pelo orgulho e a violência deixa de constranger para disputar aplausos, fica evidente que precisamos reaprender a educar para o respeito. Recuperar a vergonha de ferir o outro talvez seja uma das tarefas mais urgentes do nosso tempo. Um passo fundamental para reconstruirmos relações baseadas em respeito e, assim, caminharmos em direção a uma sociedade mais humanizada e ética.
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