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É advogada especialista em direitos das mulheres e mestre em Direitos e Garantias Fundamentais

'Se ela disser não': Como alguém tem coragem de publicar isso no TikTok?

Como alguém acha interessante aderir a essa trend? Ao que parece, não existe nenhum constrangimento por parte de homens, jovens ou mais velhos, em parecerem violentos na internet

  • Renata Bravo É advogada especialista em direitos das mulheres e mestre em Direitos e Garantias Fundamentais
Publicado em 11/03/2026 às 14h21

“Trend” significa o que está em alta, é tendência, está na moda. Novas trends têm surgido a todo momento nesse mundo cada vez maior de ambientes virtuais. Eu sempre acreditei que o que deve estar em alta, na moda, são coisas boas, mas a gente tem visto que a realidade é outra.

A trend mais recente do TikTok é a “se ela disser não". Explico. Homens gravaram e postaram vídeos encenando um pedido de casamento e, logo após, como se a mulher tivesse negado o pedido, esses homens empunham armas de fogo, dão chutes e socos e simulam muitas formas de violência física contra a mulher.

É chocante. Como alguém tem coragem de publicar uma coisa dessas? Como alguém acha interessante aderir a essa trend? Ao que parece, não existe nenhum constrangimento por parte de homens, jovens ou mais velhos, em parecerem violentos na internet. Pelo contrário, é um orgulho. Se o número de curtidas e visualizações virou uma forma de sucesso no ambiente virtual, quando a gente está nas ruas, nas casas, nas escolas, essa forma de sucesso masculino tem se traduzido em misoginia e ódio às mulheres.

Aplicativo TikTok
Aplicativo TikTok. Crédito: Divulgação

Essa tendência se traduz em números porque a cada ano o número de feminicídios no Brasil vem aumentando. A cada ano são histórias, sonhos e vidas de mulheres interrompidas. A cada ano o número de violências contra as mulheres e, além, as formas dessas violências praticadas por homens contra meninas e mulheres vêm se diversificando e ficando mais cruéis.

4 mulheres são assassinadas por dia. E muitos homens interrompem as vidas dessas mulheres justamente por elas dizerem não. Quando as mulheres dizem não ao pedido de casamento, quando as mulheres dizem não às ameaças dos maridos, quando uma adolescente de 11 anos diz não a um beijo, quando uma recepcionista diz não a um hóspede, tudo isso tem resultado em violências feitas por homens contra nós mulheres.

As mulheres têm redes importantes de proteção e a internet sempre foi aliada nisso, é verdade. A campanha “Não é Não” é um exemplo disso. O movimento foi e continua sendo tão importante que virou política pública, com a Lei nº 14.786/2023 que criou o protocolo “Não é Não”. O debate é sobre consentimento, um termo tão debatido nos últimos dias a partir do triste e brutal caso dos homens que praticaram violência sexual contra uma adolescente no Rio de Janeiro.

Mesmo com todo esse movimento, com tantas notícias de meninas e mulheres sendo violentadas em razão do gênero, muitos homens estão criando a sua rede misógina, a sua rede de ódio às mulheres, em que eles se sentem ainda mais autorizados a dizer em alto e bom som que vão praticar violências contra mulheres, que vão bater, que vão ameaçar caso elas não façam o que eles querem.

Como diz Gisèle Pelicot, a francesa que foi dopada por uma década pelo próprio marido e estuprada por dezenas de homens, a vergonha precisa mudar de lado. Não queremos estar nesse lado de sofrer violências, de ter medo de estar em qualquer espaço com homens, de ter medo de escolher, de falar a nossa vontade. Queremos que o nosso lado seja o de ser livres, estar seguras e vivas.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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