No mundo jurídico, crimes capitais são aqueles que, especialmente na antiguidade, poderiam resultar na pena de morte. Raros são os países, hoje, que adotam essa penalidade fatal. Já no mundo dos negócios, a realidade é outra: são vários os fatores que podem levar uma empresa – qualquer que seja seu porte – ao fim. E, mesmo quando não são fatais, determinados comportamentos podem comprometer de forma quase letal a imagem e a saúde dos negócios.
Ainda em 2004, há exatos 20 anos, Kofi Annan, ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), lançou o termo ESG (Environmental, Social and Governance) como um desafio a 50 presidentes das maiores instituições financeiras do mundo. O objetivo era que questões relevantes para os investidores pudessem ser aplicadas e, com isso, negócios sustentáveis – e lucrativos – cumpririam a agenda ambiental, social e de boa governança.
De lá para cá, a expressão ganhou força própria, impulsionada também pela Agenda 2030, pelo Acordo de Paris e, mais recentemente, pelo lançamento de métricas ESG. Mas o lucro pelo lucro, a ausência de integridade e práticas gananciosas continuam a trazer exemplos que deixam lado o 'G', que incorpora as ações de boa governança.
Vamos aos exemplos. No plano internacional, a busca desenfreada pelo lucro levou a Boeing – segunda maior fabricante de aviões do mundo – a priorizar os ganhos, em vez de segurança. Com isso, após a queda de duas aeronaves com poucos meses de fabricação, investigações mostraram omissões criminosas na estratégia da empresa.
Com mais de 300 mortes nas costas e a necessidade de voltar a ser conhecida pela confiança do público e das empresas em suas aeronaves, a Boeing despendeu a impressionante cifra de mais de US$ 100 bilhões, perdeu credibilidade e o caso ficou conhecido como o maior erro corporativo que já existiu.
Não precisamos ir longe para aferir o quanto esses comportamentos podem ser danosos. No caso Americanas, ainda recente no noticiário, uma das empresas com maior reputação histórica junto aos consumidores, foi afetada pela ganância representada por uma das maiores fraudes contábeis no país, com prejuízo bilionário. Falhou a governança, perdeu em resultados, competitividade e imagem, simultaneamente.
O mais valioso para as corporações é sua imagem. Sem ela, não há lucro. Com todos conectados em tempo real, ela tornou-se imprescindível em um nível nunca antes visto. Consumidores se conectam com a imagem de uma empresa em poucos cliques.

Da mesma forma, nas negociações B2B (abreviação de "Business to Business", que significa "negócios para negócios", entre empresas), as avaliações prévias, conhecidas como due diligence, avaliam em detalhes como anda a integridade corporativa e, nela, a relação com o meio ambiente e com a responsabilidade social. Não há espaço para maquiagem.
Também não podemos deixar essa discussão de lado no setor público. A cada dia, tem sido mais comum governos divulgarem negociações milionárias envolvendo créditos de carbono e projetos de descarbonização. A desenfreada busca por resultados não deve passar à frente da agenda da integridade, sob risco de descrédito imediato junto aos grandes investidores.
Por mais importância que o ESG como um todo tenha ganhado, é importante não perder de vista que a governança é um pilar mestre. Diferentemente do cenário de criação, hoje os investimentos e resultados em cada uma dessas agendas pode ser medido e verificado, e tudo pode se perder se não houver transparência, rastreabilidade e report adequado. A dica, portanto, é: se for incorporar o ESG, que não seja fake.
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