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É gerente de marketing e especialista em agronegócio

O horizonte que voa: como os drones estão mudando o cenário do café

Eles inauguram um mercado novo: o do aluguel de voo. Os produtores que podem compram o seu; os demais contratam o serviço por hectare e por hora, como quem chama um táxi

  • Domicio Faustino É gerente de marketing e especialista em agronegócio
Publicado em 28/01/2026 às 16h20

No distrito de Imbiruçu, em Mutum, a Zona da Mata amanhece contrariando o calendário. Em 21 de novembro de 2025, o frio baixa para menos de quinze graus e embrulha a paisagem numa neblina que se crê inverno. Às sete da manhã, o sino da Igreja Católica marca o início do expediente, mesmo que ninguém ali ainda precisasse de lembrete.

Sob a poeira vermelha — quase laranja — que sobe da rua principal, a geografia secular do café dá sinais de que está sendo reescrita por forças mais silenciosas do que o vento e mais rápidas do que o correr das motos: uma tecnologia que pretende, do chão ao céu, redesenhar o trabalho e o sonho rural.

O frio, o banco e a jornada antes do dia

A vida real não espera o sol espantar a geada. Ela começa antes. Pelo segundo dia seguido, meu irmão saiu de casa pouco antes das quatro da manhã. A cena não é excepcional: é rotina. Enquanto crianças encapuzadas, com mochilas cheias de cadernos e expectativas, ainda tropeçam sonolentas rumo à escola, os trabalhadores já estão horas adiantados — e a parte adulta da paisagem já girou metade de seu relógio.

Do banco onde estou sentado, no centro da via principal, observo o desfile matinal. Motos passam como flechas — algumas com capacete, outras confiando na própria sorte — rumo às lavouras de café que se alongam pelas montanhas. A cada aceleração, a poeira sobe e pousa no meu telefone, obrigando-me a varrer a tela com sopros curtos entre um parágrafo e outro. Quando o sino toca, o fluxo das crianças cessa, as lojas erguem suas portas metálicas, e a engrenagem de Imbiruçu — na fronteira entre Minas e Espírito Santo — dá início ao seu turno.

O preço do café e o velho sonho de liberdade

O café, esse pilar econômico da região, voltou a pagar bem. E, como sempre que paga bem, reacende esperanças. Mas os velhos problemas continuam enraizados: falta gente disposta a fazer o serviço pesado, e o dia não ganhou horas extras. A moto, durante décadas, foi o primeiro sinal de ascensão: a máquina de marcas japonesas que libertava o jovem da roça da tirania das distâncias. O sonho de consumo continua o mesmo — liberdade, velocidade, independência — mas o mundo em volta mudou.

Agora, a tecnologia tenta preencher o vácuo deixado pela mão de obra escassa. Se as motos resolveram o problema da mobilidade, os drones querem resolver o da produtividade.

A revolução que veio dos céus — e da China

Sem alarde, outra máquina começou a disputar espaço no imaginário rural: o drone pulverizador. Nascido de engenharias chinesas, o equipamento se espalhou pelo país com a velocidade das pragas que promete combater. Desde 2021, o número de drones agrícolas multiplicou-se mais de onze vezes, ultrapassando 35 mil unidades em operação no Brasil — um avanço que não se explica por capricho tecnológico, mas por pura necessidade.

Drones são usados para proteger plantações
Drones são usados para proteger plantações. Crédito: Shutterstock

Os drones dispensam dias de trabalho braçal. Não precisam de sombra, água nem descanso. Pairam, avançam, pulverizam e voltam para casa com precisão quase militar. E, no processo, inauguram um mercado novo: o do aluguel de voo. Os produtores que podem compram o seu; os demais contratam o serviço por hectare e por hora, como quem chama um táxi. O que antes levava dois ou três dias de esforço humano agora termina em uma manhã de hélices.

Entre poeira, fé e hélices

Às sete da manhã, enquanto a poeira baixa e a rua reassume seu estado natural, é possível ouvir as camadas sonoras da vida local: o sino da fé, o ronco das motos que levam ao sustento e, ao fundo, o zumbido quase tímido das máquinas que representam o futuro. Na Zona da Mata, o sonho da moto — ainda firme e presente — divide agora espaço com a performance aérea dos drones.

A nova economia de serviços que surge não é apenas um avanço técnico: é um rearranjo profundo do que significa trabalhar na roça. Uma história antiga, de suor e montanha, está sendo reescrita com a tinta digital das hélices e a pressa do progresso.

E Imbiruçu, entre a poeira vermelha e a neblina improvável, já respira o ar misturado do que sempre foi — e do que está se tornando.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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