O Espírito Santo encerrou 2025 com um dado que deveria provocar reflexão profunda: 1.004 mortes em sinistros de trânsito, segundo o Observatório da Segurança Pública. São mil razões para lamentar, mas sobretudo para reagir. Em 2020, foram 750 óbitos. Em apenas cinco anos, o crescimento ultrapassa 30%, revelando uma escalada silenciosa que naturalizamos perigosamente.
Números, porém, não traduzem a dimensão da tragédia. Cada estatística representa uma vida interrompida, famílias despedaçadas e projetos que jamais se concretizarão. De forma dura, mas realista, hoje é mais provável morrer em colisões e atropelamentos no Espírito Santo do que por crimes letais contra a vida. E isso não diminui os avanços obtidos na segurança pública — ao contrário, escancara outro desafio urgente.
É inegável que a política estadual conseguiu reduzir homicídios, superando momentos sombrios como o de 2009, quando o Estado ultrapassou a marca de dois mil assassinatos. Esse êxito, contudo, não pode servir de cortina para uma crise que se instala nas ruas, rodovias e avenidas. A violência no trânsito é, ao mesmo tempo, problema de segurança e de saúde pública, exigindo resposta integrada, consistente e contínua.
Os dados mostram um aspecto ainda mais alarmante: mais da metade das vítimas fatais — 505 pessoas, ou 50,3% — eram motociclistas. Trata-se de um grupo especialmente vulnerável, exposto ao impacto direto em qualquer colisão. Não por acaso, muitos utilizam a moto como instrumento de trabalho, em jornadas exaustivas, pressionados por prazos, metas e condições adversas. Imperícia, imprudência, desrespeito às normas e precariedade da infraestrutura viária se combinam em um cenário que cobra um preço alto demais.
Além disso, existe uma face menos visível dessa tragédia: as chamadas “mortes tardias”. Em 2025, 138 pessoas faleceram até 30 dias após o acidente, muitas após longas internações no sistema público de saúde. São histórias de dor prolongada, sofrimento familiar e custos elevados ao Estado. E há ainda os sobreviventes com sequelas permanentes, afastados do trabalho, da autonomia e, em muitos casos, da dignidade.
As mais de mil mortes no trânsito são apenas a ponta de um iceberg. A legislação existe, as punições estão previstas, mas a aplicação ainda falha, sobretudo quando a negligência resulta em perda de vidas. Fiscalização, educação permanente, melhoria das vias e responsabilização efetiva precisam caminhar juntas.
Não podemos aceitar que essa estatística se repita ano após ano como se fosse inevitável. Cada vida importa. O Espírito Santo não pode continuar acumulando mil razões para lamentar quando deveria reunir mil motivos para agir.
Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.