Estamos diante de um momento decisivo para o setor produtivo brasileiro. Há anos o país vem se distanciando das economias mais eficientes do mundo, acumulando um desempenho insatisfatório em produtividade. Embora o Brasil seja a 10ª maior economia do planeta, ocupa apenas a 94ª posição em produtividade por hora trabalhada. O dado reforça um alerta: seguimos perdendo competitividade em um cenário internacional cada vez mais exigente.
O debate sobre a escala 6x1 e a redução do limite semanal de jornada, que voltou ao centro da agenda nacional, não ocorre em um momento favorável para o país. Trata-se de um tema sensível, que envolve qualidade de vida, saúde mental, competitividade, desenvolvimento e impactos econômicos.
De fato, o tema é legítimo e necessário, mas a resposta não pode ser simplista. Ela exige amplo diálogo e amadurecimento técnico, e não tramitação apressada. Mudanças estruturais dessa magnitude precisam ser debatidas com profundidade e responsabilidade.
Ao menos quatro propostas tramitam no Congresso Nacional, prevendo a redução do limite de jornada de 44 horas semanais para 40 ou 36 horas. Sem ganhos concretos de produtividade, essa medida representa um atalho perigoso e potencialmente custoso para o país. O Brasil já apresenta jornada média semanal de 38,9 horas, abaixo da média global (39,9 horas), da América Latina (40,4 horas) e dos países do G20 (42,6 horas), segundo a ILOSTAT, base de dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Entre 1981 e 2024, a produtividade brasileira cresceu apenas 0,9% ao ano, percentual muito inferior ao de economias que hoje lideram cadeias globais de valor, como China (8%), Índia (5,1%) e Coreia do Sul (4,2%). Em 2025, o trabalhador brasileiro produziu cerca de quatro vezes menos que um estadunidense ou europeu e quase oito vezes menos que um irlandês. Estamos, portanto, em uma corrida contra o tempo para reverter um quadro estrutural de baixa eficiência.
Nas condições atuais, a estimativa é que a redução da jornada para 40 horas semanais gere aumento de até R$ 267,2 bilhões anuais nos custos das empresas brasileiras. No Espírito Santo, em um cenário de contratação de novos empregados, os gastos adicionais com mão de obra formal chegariam a R$ 2,96 bilhões ao ano, aumento de 4,6% nos custos.
Já se as empresas optassem pelo pagamento de horas extras, o aumento das despesas com pessoal seria de R$ 4,43 bilhões por ano, elevação de 6,9% nos custos trabalhistas. Todavia, em um ambiente já marcado por baixa eficiência estrutural, qualquer redução compulsória da jornada, sem aumento proporcional de produtividade, eleva automaticamente o custo por hora trabalhada.
A maior incidência recairá sobre micro e pequenas empresas, responsáveis por 40% dos empregos formais no país e 45,1% no Espírito Santo. Elas têm o maior coeficiente de trabalhadores com jornadas superiores a 40 horas semanais. Para muitas delas, a elevação do custo da hora trabalhada reduzirá margens, desestimulará investimento e comprometerá a capacidade de expansão das empresas. O resultado tende a ser repasse de preços para o consumidor.
É evidente que o mundo do trabalho está em transformação e que novos debates são necessários e legítimos. No entanto, mudanças estruturais exigem base técnica sólida e responsabilidade econômica. A negociação coletiva, entre sindicatos laboral e patronal, já se mostra instrumento eficaz para ajustar jornadas conforme a realidade de cada setor. Entre julho de 2024 e julho de 2025, quase 6,2 mil acordos coletivos no Brasil trataram de redução ou prorrogação de jornada, segundo dados do Ministério do Trabalho.
O verdadeiro desafio nacional é produzir cada vez melhor. O Brasil precisa transformar produtividade em projeto de Estado e isso inclui olhar para educação técnica de escala, inovação incorporada às cadeias produtivas, simplificação tributária efetiva, segurança jurídica e ambiente favorável ao investimento. Países que prosperaram fizeram essa escolha com clareza e consistência. Se quisermos ampliar direitos de forma duradoura, precisamos primeiro ampliar nossa capacidade de gerar riqueza.
A agenda do futuro é elevar eficiência com responsabilidade intergeracional para que o progresso seja sustentável e compartilhado. Reduzir jornada sem elevar produtividade pode produzir ganhos imediatos para alguns, mas impõe riscos duradouros a toda a economia. Estamos falando de impactos na geração de emprego, no investimento e no crescimento econômico. Não podemos comprometer o futuro do país perdendo ainda mais competitividade.
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