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É médica nutróloga e proprietária da Mariana Comério Clínica

Menopausa e autonomia: discutir reposição hormonal é um direito da mulher

O conjunto de prós e contras é avaliado com muito mais eficácia. Da mesma forma que para algumas mulheres a TRH é uma aliada importante para recuperar qualidade de vida, para outras ela pode não ser a melhor estratégia

  • Mariana Comério É médica nutróloga e proprietária da Mariana Comério Clínica
Publicado em 18/11/2025 às 11h47

A menopausa marca uma transição profunda na vida da mulher. Uma fase que envolve transformações físicas, emocionais, metabólicas e até sociais. Porém, apesar de ser um processo natural, ela ainda é envolta em tabus, receios e informações contraditórias, especialmente quando o assunto é a terapia de reposição hormonal (TRH).

Diante desse cenário, uma verdade se torna incontornável: não existe decisão segura sobre TRH sem um diálogo aberto, individualizado e criterioso entre a mulher e o seu médico.

A diversidade de experiências é enorme. Algumas mulheres atravessam a menopausa com poucos incômodos, outras enfrentam ondas de calor intensas, alterações de humor e outros transtornos emocionais, insônia, diminuição do desejo sexual, ressecamento vaginal e perda acelerada de massa óssea.

Essas diferenças mostram que não há uma abordagem única que sirva para todas, nem no diagnóstico, nem nas opções de tratamento.

Recentemente, o FDA (agência de medicamentos dos Estados Unidos) anunciou uma mudança histórica: a remoção do alerta em caixa preta (“black box warning”) de mais de 20 terapias hormonais usadas para tratar os sintomas da menopausa.

Essa advertência foi desencadeada há algumas décadas por um estudo da Women’s Health Initiative (WHI), cujos resultados geraram uma onda de pânico na comunidade médica e entre pacientes, especialmente porque a média de idade das mulheres no estudo era de 63 anos, bem acima da idade típica em que muitas iniciam a terapia hormonal.

Essa decisão contribuiu para combater o estigma que tem pairado sobre a terapia de reposição hormonal por décadas. Vale ressaltar que esse tratamento não pode nem deve ser prescrito nem administrado aleatoriamente, e requer critério e orientação de um especialista devidamente qualificado. Mas a remoção desse alerta abre espaço para uma reflexão mais equilibrada entre paciente e profissional de saúde.

Por isso, a consulta médica não pode ser protocolar, mas personalizada, considerando a história de vida, o contexto emocional, a rotina, as comorbidades e as prioridades de cada mulher.

Nessas condições, o conjunto de prós e contras é avaliado com muito mais eficácia. Da mesma forma que para algumas mulheres a TRH é uma aliada importante para recuperar qualidade de vida, para outras ela pode não ser a melhor estratégia.

Não se trata, portanto, de um passe livre para o uso indiscriminado da TRH, até porque o FDA não removeu completamente todos os riscos. Ainda existem advertências que devem ser consideradas, como a não recomendação a mulheres que desenvolveram determinados tipos de câncer ou possuem histórico da doença na família, por exemplo. Cada paciente requer um acompanhamento médico cuidadoso, informado e contínuo.

ginecologista
Ginecologista. Crédito: Shutterstock

Na hora de decidir, é muito importante individualizar, avaliando riscos pessoais, analisando histórico médico e estado geral de saúde de cada mulher para definir o tipo de hormônio, a via de administração e momento de início do tratamento (ou até mesmo descartar a possibilidade).

O ponto central da desmistificação é compreender que não existe uma “receita única”. Falar abertamente sobre a menopausa e seus tratamentos, com base em evidências científicas, é um ato de empoderamento, e um direito legítimo de toda mulher.

Quando médico e paciente atuam juntos, a decisão não é apenas mais segura; ela é mais humana. E é assim que a menopausa deixa de ser uma fase temida para se tornar um momento de cuidado, autoconhecimento e qualidade de vida com a ajuda da ciência e também de uma assistência médica que visa a saúde feminina na sua totalidade.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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