A frase que diz que a educação é o caminho para transformar o mundo é quase um mantra em nossa sociedade. Repetida à exaustão, mesmo que nem sempre acompanhada de vivências, investimentos e projetos concretos, ela precisa ser compreendida em sua dimensão mais ampla.
Sim, é pela educação que iremos mais longe e seremos melhores, mas a escola não pode ser vista como o único e principal ente responsável pelo processo de formação do indivíduo.
Não se trata de nos eximir da responsabilidade que temos. É exatamente o contrário: para contribuir de fato, precisamos andar de mãos dadas com as famílias, entendidas como esse primeiro e mais importante lugar de formação, que, num mundo de mudanças cada vez mais velozes e complexas - da geopolítica à inteligência artificial, passando pelos relacionamentos - também precisa de apoio, suporte e parcerias para dar conta de sua missão.
Como alguém que atua diariamente em uma escola, entendo que o que chega às salas de aula ou aos pátios das instituições de ensino do país é reflexo do que vemos do lado de fora, para além dos muros escolares.
Nosso papel, como agentes educacionais, é contribuir com a família — com coragem, responsabilidade e comprometimento — para mudar o rumo das coisas. A partir da reflexão e da desconstrução de paradigmas, criaremos, juntos, terreno fértil para produzir olhares mais humanos, empáticos, justos e respeitosos com o outro, o que, no Dia Internacional da Mulher, significa repensar urgentemente a forma como os homens tratam e se relacionam com as mulheres.
Envolver a família, caminhar lado a lado, criar canais de interação e manter proximidade — por meio, por exemplo, de escolas de pais, grupos de estudo, portas abertas e eventos que envolvam toda a comunidade escolar — é um caminho possível.
Outro é ter clareza de que o fato de a escola não ter como assumir sozinha o desafio de formar um indivíduo e um cidadão não deveria lhe dar o “direito” de cruzar os braços.
O ambiente escolar é um dos primeiros espaços públicos em que crianças e adolescentes convivem com a diversidade, aprendem limites e exercitam o respeito.
É nele que muitos meninos precisam ouvir – e ver - , desde a educação infantil e ao longo de toda a vida estudantil, que meninas têm os mesmos direitos, a mesma autonomia e o mesmo valor.
Ninguém nasce pronto. E, nesse sentido, essa é uma reflexão fundamental ao processo educativo, já que igualdade, respeito e empatia também se aprendem — da mesma forma que se aprendem, infelizmente, o preconceito e a violência.
Na escola e na sociedade, as discussões sobre gênero, cultura e convivência não podem ficar restritas a “nichos”. É urgente que questões ligadas à vida, à saúde e aos direitos das mulheres sejam debatidas também pelos meninos, adolescentes e jovens — muitas vezes protagonistas de situações de desrespeito que podem ir do interromper a fala feminina em uma troca de ideias até atrocidades como os inúmeros casos de violência sexual e feminicídio a que assistimos todos os dias, assustados e estarrecidos.
Construir regras de convivência em conjunto, falar sobre a autonomia das mulheres e ajudar os meninos a repensarem ideias culturalmente associadas à masculinidade — como agressividade, força e poder — são movimentos importantes que precisam ser fortalecidos.
Na escola, em casa ou no trabalho, se conseguirmos contribuir para que o menino de hoje entenda que sensibilidade, respeito e igualdade são valores que farão dele verdadeiramente um homem, estaremos plantando algo poderoso e importante.
A escola não muda o mundo sozinha. Mas pode ajudar a mudar quem vai habitá-lo. Assim mesmo, no masculino.
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