Em 2025, o Brasil registrou 1.518 feminicídios, um recorde histórico. São quatro mulheres assassinadas por dia simplesmente por serem mulheres. Se consideradas também as tentativas, foram quase 7 mil casos no ano. Os números revelam uma realidade alarmante e mostram que, apesar dos avanços legais, ainda estamos longe de enfrentar o problema em sua raiz.
Com a Lei Maria da Penha, que em 2026 completa 20 anos, a violência doméstica passou a ser tratada como crime. Em 2015, a Lei do Feminicídio qualificou o assassinato de mulheres por razões de gênero como crime hediondo. Ainda assim, os registros desse tipo de violência cresceram mais de 300% desde então. Isso evidencia que a legislação, embora fundamental, não é suficiente se não vier acompanhada de transformação social.
Ao analisar o perfil das vítimas, um padrão se repete: a maioria não concluiu o ensino fundamental, é jovem, tem baixa renda e baixa escolaridade; 61% são mulheres negras. A falta de acesso à educação aprofunda vulnerabilidades, limita o acesso à informação sobre direitos e reduz as condições de independência econômica para sair de relações abusivas.
Os dados do Censo Escolar de 2025 mostram que o país perdeu cerca de 1 milhão de matrículas na educação básica em apenas um ano, enquanto o ensino médio atingiu o pior patamar do século. Cada menina que a escola perde hoje pode ser amanhã uma mulher com menos recursos para se proteger. Por outro lado, cada diploma amplia escolhas — e escolha é o oposto da violência.
O esporte também desempenha um papel decisivo. Meninas que praticam atividades esportivas tendem a permanecer mais tempo na escola, adiar a gravidez e ampliar suas oportunidades de futuro. O esporte desenvolve disciplina, autoconfiança e consciência corporal. No entanto, 49% das meninas brasileiras abandonam o esporte na adolescência, taxa seis vezes maior que a dos meninos — justamente quando mais precisariam permanecer.
Por isso, o esporte feminino deve ser tratado como política pública de permanência e proteção, e não apenas como entretenimento. Ele promove pertencimento, fortalece vínculos e cria comunidades de apoio que ampliam as possibilidades de desenvolvimento.
Essa reflexão também precisa alcançar o ambiente corporativo. O trabalho deveria representar independência e realização, mas muitas mulheres ainda enfrentam assédio e violência moral nas organizações. Empresas têm responsabilidade em garantir ambientes seguros, respeitosos e livres de qualquer forma de agressão.
Outro elemento essencial são as redes de apoio. Em 2025, o Ligue 180 recebeu 877 mil ligações — quase três mil por dia — e, em dois terços dos casos, foi a própria vítima quem pediu ajuda. Isso mostra que muitas mulheres buscam apoio, mas nem sempre encontram a resposta necessária.
Combater o feminicídio exige ação coletiva. É papel do Estado, mas também das escolas, empresas, comunidades e das pessoas ao redor. A educação que liberta precisa chegar antes que o ciclo da violência se consolide. O esporte que fortalece precisa manter as meninas na adolescência. E as redes de apoio precisam funcionar antes que seja tarde.
Enquanto uma mulher ainda morrer por ser mulher, nenhuma de nós estará verdadeiramente livre, forte ou segura.
Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.