A revista The Economist publicou nos últimos dias um recado aos países ricos e cunhou um rótulo para o risco: “brasilificação”. A expressão é um alerta para países que perdem o controle da dívida e passam a viver sob juros altos, com pouco espaço para escolhas. Não é um conceito teórico. É uma descrição concreta do Brasil, onde a fatura dos juros avança e vai engolindo o orçamento. A pergunta, portanto, é por que, conhecendo essa armadilha há anos, o país continua incapaz de escapar dela.
Os números explicam o constrangimento. Desde 2014, o Brasil acumula déficits primários e convive com uma dívida em trajetória ascendente. Ela era de 52% do PIB naquele ano e deve alcançar 82% em 2026, aproximando-se de 90% em 2032, segundo o Tesouro Nacional. Para estabilizar essa curva, seria necessário produzir superávits próximos de 2% do PIB, segundo cálculos do Instituto Fiscal Independente. Em outras palavras: fazer de forma consistente o que nenhum governo conseguiu entregar na última década.
Muita gente olha para esse cenário e não vê crise. O PIB tem crescido perto de 3% ao ano, o desemprego caiu a mínimas históricas e milhões saíram da pobreza. Nesse contexto, o discurso fiscal parece deslocado. Soa como aquele velho sermão liberal que pede sacrifício em nome de uma “responsabilidade” abstrata, com a mesma consequência de sempre: cortar gasto social. Se o país cresce e o mercado de trabalho melhora, por que insistir em ajuste fiscal?
A resposta é que o custo do endividamento raramente aparece como manchete. Ele se impõe como sufocamento silencioso. Quando a despesa obrigatória cresce no piloto automático, sobra pouco espaço para escolher prioridades. A previdência, sozinha, já consome perto de 10% do PIB e segue avançando.
Nesse ambiente, o debate procura culpados fáceis. Programas visíveis, como o Bolsa Família, viram alvo. Enquanto isso, subsídios bilionários e transferências via emendas seguem ocupando espaço, quase sempre sem avaliação séria de retorno. A conta fecha do pior jeito: o investimento público federal mal alcança 1% do PIB. O futuro fica sempre para depois.
Se o problema é tão claro, por que ele nunca é enfrentado? James Buchanan, Nobel de Economia em 1986, ajuda a entender com a teoria da escolha pública. Em vez de imaginar o governo como um “planejador” que faz o melhor para o país, ele descreve a política como um processo de disputa por orçamento.
Quem perde com uma reforma sente no bolso no mês seguinte, faz barulho, vai ao Congresso, judicializa. Já o ganho da disciplina fiscal é coletivo e demora a aparecer, na forma de juros menores e mais investimento no futuro. Nesse arranjo, o incentivo natural é empurrar decisões difíceis para a frente.
Enfrentar esse impasse exige o que o ciclo eleitoral raramente recompensa: conversa honesta sobre o custo de não agir. Não se trata de desmontar a rede de proteção social. Trata-se de reconhecer que um país que se endivida para pagar juros, e não para investir, está consumindo o futuro dos seus filhos. A “brasilificação” que a Economist teme para o mundo desenvolvido já é o nosso cotidiano. A diferença é que, enquanto eles discutem como evitá-la, nós ainda não decidimos enfrentá-la.
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