Autor(a) Convidado(a)
Ele é é CEO da Forttu Investimentos e Autor dos livros: “Investe Logo: Compartilhando experiências com o investidor iniciante” e “O Caminho para o Sucesso na Assessoria de Investimentos: Processo, Relacionamento e Intensidade”. Ela é especialista em liderança, performance e desenvolvimento organizacional. Ao longo de 18 anos, atuou em grandes operações como Disney, Cosan, Globo, Fox Sports e G4 Educação

Eu sou um líder que não gosta de pessoas

Liderança não é concurso de simpatia. Não é sobre afinidade natural, identificação instantânea ou conexão emocional com todos ao redor. Liderar é assumir responsabilidade sobre resultados e, principalmente, sobre evolução

  • José Neto R. Torres e Marcela Zaidem Ele é é CEO da Forttu Investimentos e Autor dos livros: “Investe Logo: Compartilhando experiências com o investidor iniciante” e “O Caminho para o Sucesso na Assessoria de Investimentos: Processo, Relacionamento e Intensidade”. Ela é especialista em liderança, performance e desenvolvimento organizacional. Ao longo de 18 anos, atuou em grandes operações como Disney, Cosan, Globo, Fox Sports e G4 Educação
Publicado em 07/03/2026 às 12h00

Sim, você leu certo. Eu sou um líder que não gosta de pessoas. A frase é provocativa, desconfortável e, para muitos, quase inaceitável. Em um ambiente corporativo cada vez mais tomado por discursos ensaiados, soa como heresia. Afinal, não aprendemos que “pessoas são o maior ativo” e que o bom líder é aquele que ama gente? Justamente aí começa o problema.

Criou-se um clichê elegante em torno da liderança. Em entrevistas, palestras e artigos, repete-se quase automaticamente que “eu amo pessoas”, “liderar é sobre pessoas”, “gente é tudo”. São frases bonitas, socialmente aprovadas, e, muitas vezes, verdadeiras. O problema é quando viram respostas prontas, moldadas para agradar, e deixam de refletir a prática.

Eu sei como isso soa. Parece frieza. Mas o que eu quero dizer é simples: no trabalho, eu não tenho obrigação de gostar de todo mundo. Eu tenho obrigação de respeitar, desenvolver e sustentar padrão.

Cursos de liderança e gestão de pessoas é essencial para quem busca cargos de supervisão ou gestão (Imagem: fizkes | Shutterstock)
Liderança. Crédito: Imagem: fizkes | Shutterstock

Eu prefiro a honestidade. Eu gosto de desenvolver pessoas. Mas nem sempre gosto da pessoa. E não tenho obrigação para tal.

Quando o líder troca padrão por simpatia, ele treina o time a negociar combinado. E o combinado que você tolera, vira regra.

Liderança não é concurso de simpatia. Não é sobre afinidade natural, identificação instantânea ou conexão emocional com todos ao redor. Liderar é assumir responsabilidade sobre resultados e, principalmente, sobre evolução. É estruturar ambiente, direcionar energia, corrigir rota e elevar padrão.

No fim, as pessoas não seguem o seu discurso. Elas seguem o padrão que você sustenta.

O dever de um líder não é gostar. É desenvolver. Isso significa oferecer ferramentas, clareza estratégica, feedbacks (inclusive os desconfortáveis) e suporte técnico e comportamental para que alguém evolua suas habilidades e enfrente suas próprias carências. Significa criar contexto para crescimento, mesmo quando a relação pessoal não é fluida ou carismática.

Há uma diferença entre respeito e afeição. Respeito é obrigatório. Afeição é opcional. Posso não me identificar com o seu estilo. Posso não admirar sua postura inicial. Posso discordar da sua forma de pensar. Ainda assim, se você quiser crescer, eu tenho a obrigação de contribuir com o seu desenvolvimento dentro do projeto que assumimos.

Mas há um limite que também precisa ser dito. Desenvolvimento não é unilateral. Nenhum projeto se sustenta quando apenas um lado está comprometido. Um líder deve investir energia em quem deseja ser desenvolvido. Não existe crescimento consistente quando há resistência contínua, vitimização permanente ou ausência de responsabilidade individual.

Liderar é bilateral. O líder entrega direção, estrutura e cobrança. O liderado entrega esforço, abertura e disciplina. Sem essa reciprocidade, qualquer discurso sobre “amor às pessoas” vira retórica vazia. E retórica vazia cria o pior cenário: clima “bonito” por fora e padrão frouxo por dentro.

Existe uma romantização perigosa da liderança que associa firmeza à frieza e exigência à falta de empatia. Mas, na prática, o verdadeiro desinteresse não está na cobrança, está na omissão. É muito mais confortável ser o líder simpático do que o líder que confronta.

Talvez por isso a frase “eu gosto de pessoas” seja tão repetida. Ela protege. Ela suaviza. Ela evita conflito. Eu prefiro outra postura. Eu respeito pessoas. Invisto em pessoas. Desenvolvo pessoas. Mas não romantizo pessoas.

Liderar, muitas vezes, é dizer o que ninguém quer ouvir. É exigir mais do que o confortável. É sustentar critérios mesmo quando isso gera desconforto momentâneo. É entender que crescimento verdadeiro raramente nasce de aplausos, nasce de ajuste, de tensão construtiva, de responsabilidade assumida.

No fim, liderança não é exclusivamente sobre afeição. É sobre construção. E construção exige maturidade, dos dois lados. E exige uma escolha diária: agradar ou evoluir. Eu escolho evoluir. Porque, no fim, crescer dói, e liderança que entrega não foge desse desconforto.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

A Gazeta integra o

Saiba mais
empresas Liderança

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta.