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É advogada, mestranda em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo e presidente da Comissão da Adoção e do Idoso do IBDFAM-ES

'Cringe': devemos falar em aspectos geracionais, mas não em embates

Envelhecer não é um problema, por isso não é saudável a hierarquização entre gerações, com a ideia de que os valores dos mais jovens é que são sempre aqueles que devem ser seguidos

Publicado em 29/06/2021 às 14h00
É preciso reinterpretar os estereótipos do que é envelhecer
É preciso reinterpretar os estereótipos do que é envelhecer. Crédito: Mego-Studio/ Freepik

Nos últimos dias, um suposto embate entre a geração Y (millennials), de pessoas nascidas entre os anos de 1980 a 1995 (atualmente com 25 a 40 anos), e a geração Z, dos nascidos entre 1995 e 2010 (hoje em dia com 10 a 25 anos), tem causado certo movimento das redes sociais.

Isso porque houve a catalogação de uma série de gostos e atitudes dos millennials que são fortemente criticadas pela geração Y. Para se ter uma ideia, gostar de produtos da Disney, usar calça do modelo “skinny”, usar sapatilhas arredondas, utilizar certos emojis em suas comunicações virtuais e, pasmem, até mesmo amar café, acabou sendo descrito como “cringe”. A expressão, que representaria o “pagar mico” de algum tempo atrás, na tradução do inglês significa algo como embaraçoso ou vergonhoso.

Muitos millennials, movidos pela necessidade de se pautar em padrões mais jovens, acabam se podando e se reestruturando para se enquadrar no que constitui não vergonhoso socialmente para a geração Z. Ocorre que, por mais que se tente e, eventualmente, até se obtenha êxito em sentido subjetivo, não é possível alterar o seu padrão geracional em caráter objetivo. Apenas a data de nascimento é referida como critério para catalogação em uma geração ou outra.

A tentativa de enquadramento em padrões geracionais mais jovens não é algo novo. Os indivíduos possuem um certo temor em sofrer os efeitos do envelhecimento, embora, em um caráter bastante dúbio, também queiram envelhecer, já que a outra saída é uma morte precoce. Nesse contexto, dois grandes medos andam de mãos dadas: envelhecer e morrer.

A sociedade ainda está pautada na ideia de que uma pessoa, ao envelhecer, está realmente próxima do fim. Tal lógica não mais deve ser vista como uma verdade inconteste, principalmente em uma sociedade longeva como a nossa e que teremos de forma ainda mais incisiva nos anos vindouros. Esse cenário altera drasticamente a forma como pessoas vivem cada fase da vida. Com o avanço da medicina e aumento da expectativa de vida, é possível que as pessoas vivam mais anos já sendo catalogadas como idosas do que em qualquer outra fase da vida.

Tal lógica demanda uma reinterpretação dos estereótipos do que é envelhecer. Afinal toda geração levará consigo, nesse natural processo de envelhecimento, os valores, símbolos e interesses que estão relacionados ao seu desenvolvimento como ser humano. Logo, o idoso do futuro em nada se assemelhará ao idoso do presente, da mesma forma que os idosos do presente (da geração dos babyboomers) pouco se aproximam dos denominados “superidosos”, já com mais de 80 anos de idade (integrantes da geração silenciosa).

Como consequência, é preciso falar de aspectos geracionais e os impactos que deles derivam, inclusive para o futuro, visando a adequar leis, políticas públicas (inclusive de conscientização) e, ainda, reestruturar a mentalidade social para o entendimento de que envelhecer não é um problema. Em um cenário longevo, pode estar bastante dissociado da ideia da morte e de todos as perversas características corriqueiramente associadas ao envelhecimento, como a ideia de que idosos são improdutivos, assexuados, analógicos e dependentes. Falar na existência de um “embate geracional” apenas perpetua tais estereótipos, bem como o pânico de envelhecer.

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Devemos, sim, falar em aspectos geracionais, mas evitar ao máximo os “embates” e a hierarquização entre gerações, com definições de que, sempre e em qualquer hipótese, os comandos conferidos pelas gerações mais jovens são aqueles que devem ser aceitos de maneira indiscriminada pelas demais gerações. 

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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