O início de um novo ano carrega consigo o simbolismo da "folha em branco" como um convite para repensar, rever e redesenhar metas e prioridades. Nesse contexto, surge a campanha Janeiro Branco, um movimento dedicado à conscientização sobre a saúde mental para além de preconceitos e tabus.
É uma iniciativa que pretende, ao promover a reflexão sobre o tema, aguçar nosso olhar para aquilo que de fato a saúde mental é, extraída nossa visão míope: parte fundamental do que somos e aspecto indissociável da saúde integrada, do bem-estar e do bem envelhecer.
Sim, o tema ganha contornos específicos quando se pensa no público idoso. Como aceitar esse convite ao autoconhecimento imerso em estigmas e no silenciamento forçado de dores que a sociedade insiste em rotular como “naturais da idade”?
O envelhecimento traz consigo perdas inevitáveis: a aposentadoria, que pode gerar o sentimento de não pertencimento e de “falta de utilidade”; a dor pelo falecimento de cônjuges, familiares e amigos; a diminuição da autonomia física; e eventuais dificuldades cognitivas.
Tudo isso pode levar o idoso a um lugar de tristeza, desânimo, apatia e ansiedade, que pode ser mais do que uma situação pontual e se configurar como uma doença mental que exige diagnóstico, cuidado adequado e tratamento. Para isso, é preciso ter a clareza de que envelhecer não significa – e nem deve significar – ser triste, ser apático, ser ansioso ou deprimido.
A depressão em idosos é uma condição clínica séria e, muitas vezes, camuflada por queixas físicas, como dores crônicas ou insônia, o que também acaba dificultando o diagnóstico e, por consequência, o tratamento. Preveni-la também pode ser ainda mais difícil nessa idade, e a rede de apoio é muito importante tanto na prevenção quanto na identificação e no tratamento.
O isolamento social, por exemplo, é um dos maiores gatilhos para transtornos mentais nesta fase da vida. Em um mundo cada vez mais digital e acelerado, o idoso frequentemente se sente um "estrangeiro" no próprio tempo, o que gera o sentimento de invisibilidade.
O Janeiro Branco nos convida a mudar essa lente: como qualquer outro indivíduo, em qualquer faixa etária, o idoso precisa pertencer, se manter ativo, ter círculos sociais, ter acesso à saúde, ser ouvido e sentir-se útil e respeitado.
E o diálogo intergeracional é, nesse sentido, um excelente antídoto contra a solidão, assim como são antídotos estimular o cérebro com novas aprendizagens, manter uma rotina de atividades físicas, zelar por uma boa qualidade de sono, e se livrar da visão de que precisar de ajuda profissional é demonstração de derrota ou de fraqueza.
Ao contrário, cuidar de nós mesmos, do nosso próprio envelhecimento e do envelhecimento de nossos entes queridos é validar nossas histórias, atestar nosso valor e garantir que a folha em branco de um novo ano tenha as cores de uma vida que vale a pena ser vivida em cada uma de suas fases.
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