É com profundo pesar e consternação que recebemos a notícia da chacina ocorrida no último sábado (23), no bairro Flexal II, em Cariacica. Quatro vidas foram brutalmente ceifadas: Hélio da Silva Souza, 58 anos, seu filho Gean de Castro Souza, 39, o genro Ruan Carlos da Silva Ribeiro e o jovem Carlos Daniel Rocha dos Santos, de apenas 18 anos. Um quinto homem, irmão de Gean, foi baleado no peito, sobreviveu por um milagre e segue internado.
Carlos Daniel estava no primeiro dia de trabalho. Jovem trabalhador, sonhava em casar, tirar a carteira de habilitação e construir uma vida digna. Foi morto enquanto ajudava a limpar um terreno de um projeto social ligado a uma igreja. Sua morte não foi acidente: foi execução.
A família de Hélio já carregava uma dor antiga. Em 2021, outro filho foi assassinado pelo mesmo tráfico que agora voltou para finalizar o serviço. O “crime” dessa família? Recusar-se a abaixar a cabeça. Recusar-se a fazer reverência a criminosos. Recusar-se a permitir que uma “boca de fumo” fosse instalada perto de crianças. Homens honestos, criadores de gado, pedreiros, trabalhadores que ousaram dizer não ao terror imposto pela facção Terceiro Comando Puro (TCP).
Diante dessa tragédia, o luto não pode ser apenas íntimo. É coletivo. Flexal II chora. Cariacica chora. O Espírito Santo inteiro deveria se envergonhar.
Não se trata de mais uma “narrativa policial”. O que aconteceu em Flexal II expõe o fracasso estrutural do Estado brasileiro como garantidor da ordem pública e da vida coletiva. Enquanto as forças de segurança fazem operações pontuais e prendem alguns executores, o controle territorial permanece nas mãos de organizações criminosas que atuam com hierarquia militar, armamento pesado e lógica de Estado paralelo.
Até quando vamos tratar o sintoma e ignorar a doença? O tráfico não é um problema local. É uma dinâmica internacional de bilhões de dólares que se alimenta da miséria, da ausência do Estado e da hipocrisia da “guerra às drogas”. A militarização das periferias tem se mostrado um exercício de enxugar gelo: mais armas, mais mortes, mais jovens enterrados — quase sempre os mais pobres e vulneráveis, independentemente do lado em que caem.
Estamos perdendo o futuro todos os dias. Numa transição demográfica que exige mais investimento em juventude, educação e oportunidades, o que oferecemos aos jovens das periferias? Balas e medo. As pessoas comuns estão exaustas. Sentem-se abandonadas. Chegam ao limite do “basta”. O direito mais elementar — o de ir e vir, de trabalhar, de criar os filhos em paz — transforma-se, em fração de segundos, em pena de morte quando se desagrada o “dispositivo despótico” do mundo do crime.
A sociedade civil — organizada ou não — não pode mais ser espectadora. É hora de cobrar, de se mobilizar, de exigir responsabilidade. O Estado deve ser cobrado: por que não consegue proteger quem resiste ao crime? Por que a presença policial é sempre reativa e nunca preventiva? Por que as políticas públicas para as periferias seguem pífias diante da capacidade de organização e controle territorial das facções?
A família de Hélio resistiu por anos. Sozinha. Pagou com sangue essa resistência. Hoje, o mínimo que devemos a eles é recusar o silêncio e a naturalização dessa barbárie.
Flexal II não pode ser apenas mais uma manchete que some em poucos dias. Que esse luto se transforme em indignação organizada. Que a memória de Hélio, Gean, Ruan e Carlos Daniel sirva como alerta: enquanto o Estado falhar em cumprir seu papel primordial — proteger a vida dos cidadãos —, o vazio será ocupado pela lei do mais forte.
É hora de dizer basta. Juntos.