Neste domingo (8), ocorre o Super Bowl, final do principal campeonato de futebol americano dos Estados Unidos. Anualmente, é um dos eventos com maior audiência televisiva ao redor do mundo, reunindo mais de 100 milhões de espectadores e extrapolando o universo esportivo.
Além da disputa entre as equipes pelo título da NFL (liga nacional de futebol americano), o Super Bowl é marcado pelo tradicional show do intervalo. A cada edição, artistas de destaque internacional ocupam o campo para grandes apresentações, que se tornaram parte do espetáculo, entregando superproduções que reúnem música, performance e simbologia.
Em 2026, o show fica a cargo de Bad Bunny, cantor porto-riquenho que vem se destacando na música contemporânea. Porto Rico é um território não incorporado dos Estados Unidos, com Constituição e governo próprios, mas, ainda assim, com autonomia limitada em relação ao país. Embora os porto-riquenhos sejam cidadãos estadunidenses, trata-se de um povo com identidade própria, cuja cultura é latino-americana e tem o espanhol como idioma predominante.
Anunciada meses antes, a escalação de Bad Bunny para o show do Super Bowl não poderia ter sido mais certeira. No último fim de semana, o artista conquistou um dos principais prêmios da música, o Grammy de Álbum do Ano, com "Debí Tirar Más Fotos", o primeiro álbum gravado inteiramente em espanhol a receber essa premiação.
O contexto em que esse espetáculo se insere também merece atenção. Atualmente, os Estados Unidos atravessam um período de forte tensionamento em torno da política migratória. Nas últimas semanas, têm se espalhado pelo país críticas às ações do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, em inglês) e protestos contra suas abordagens violentas e excessivamente repressivas.
Em razão de sua identidade caribenha e de sua afinidade com a comunidade latina, Bad Bunny já demonstrou preocupação com esse cenário. Ao anunciar sua turnê mundial mais recente, ele optou por deixar de fora os Estados Unidos, buscando evitar que esse público fosse exposto a abordagens predatórias do ICE nas entradas e saídas de seus shows, submetendo essas pessoas ao risco de apreensão e deportação.
Nesse contexto, colocar um artista latino-americano, com os posicionamentos assumidos por Bad Bunny, no centro das atenções do maior evento de futebol americano, é uma decisão ousada que ultrapassa o entretenimento. Trata-se de um gesto que reafirma a arte e a cultura popular como espaço de disputa simbólica e enunciação política.
Mais do que um “baile inolvidable”, o show promete ser uma declaração política em torno das tensões migratórias, em um espetáculo de alcance global. Em meio a conflitos sociais e políticos e embates com o ICE, o Super Bowl volta a demonstrar que grandes eventos culturais não precisam ser mero entretenimento. Eles também participam ativamente da construção de sentidos sobre a sociedade e as questões importantes de seu tempo.
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