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É jornalista, pós-graduado em Comunicação Estratégica, Gestão da Imagem e Política pela Ufes e especialista em redes sociais

A caminhada de Nikolas Ferreira como estratégia de marketing político

Independentemente de concordâncias ou discordâncias sobre a causa defendida, a ação evidencia uma leitura sofisticada do marketing político contemporâneo

  • Humberto Gomes É jornalista, pós-graduado em Comunicação Estratégica, Gestão da Imagem e Política pela Ufes e especialista em redes sociais
Publicado em 22/01/2026 às 13h25

A caminhada do deputado Nikolas Ferreira de Minas Gerais até Brasília, em defesa da liberdade do ex-presidente Jair Bolsonaro, deve ser analisada, sob a ótica do marketing político, como uma operação de comunicação estrategicamente enquadrada.

Desde o início, o gesto é deslocado do campo da opinião ou do mérito da causa para o campo da estratégia: não se trata apenas de um deslocamento físico, mas da construção deliberada de uma narrativa pensada para engajar de forma contínua, gerar identificação emocional e garantir presença permanente no debate público.

No marketing político contemporâneo, gestos têm pesos equivalentes — e muitas vezes superiores — ao discurso. Ao optar por uma caminhada longa, visível e fisicamente exigente, o parlamentar transforma o próprio corpo em meio de comunicação.

O esforço cotidiano, o desgaste e a persistência operam como metáforas claras de compromisso, resistência e entrega, atributos que dialogam diretamente com uma base eleitoral que responde mais à demonstração prática do que à retórica institucional.

A ação rompe com a lógica do ato político pontual e passa a operar como narrativa em fluxo. Ela se desenvolve no tempo, não em um único momento. Cada trecho percorrido se converte em conteúdo, cada dia renova o contato com o público.

Do ponto de vista estratégico, isso cria uma fonte constante de material orgânico para redes sociais, favorecendo recorrência, acompanhamento e permanência do tema em circulação.

Ao mesmo tempo, a caminhada se estrutura como storytelling contínuo, com começo, percurso e destino simbólico. A saída do território de origem, a travessia da estrada e a chegada ao centro do poder político formam um arco narrativo simples, facilmente assimilável e altamente visual.

Essa linearidade facilita o engajamento progressivo e transforma a ação em uma sequência acompanhada em tempo real, mais próxima de uma série do que de um evento isolado.

Outro elemento central é a humanização da imagem pública. Fora do ambiente institucional, o político aparece em situação de esforço real, em contato direto com apoiadores e com o cotidiano da estrada. Essa exposição reduz a distância simbólica entre representante e eleitor e reforça a percepção de autenticidade, um ativo decisivo na comunicação política atual.

Há também coerência clara entre ação e posicionamento. A caminhada dialoga diretamente com atributos já associados à marca política de Nikolas Ferreira, como ativismo, mobilização e defesa enfática de valores ideológicos. Do ponto de vista de branding político, gesto, discurso e estética caminham alinhados, fortalecendo a identidade e evitando ruídos na comunicação.

Deputado federal Nikolas Ferreira na Câmara dos Deputados
Deputado federal Nikolas Ferreira na Câmara dos Deputados. Crédito: Pablo Valadares/Câmara

Além disso, a ação extrapola o indivíduo e assume caráter mobilizador. Mesmo quem não participa fisicamente do percurso é convocado a engajar, acompanhando, compartilhando ou defendendo a narrativa nas redes. Um gesto pessoal, assim, se transforma em movimento amplificado digitalmente, capaz de ocupar espaço e sustentar o debate ao longo do tempo.

No fim, a caminhada não se resume ao trajeto percorrido, mas ao significado construído durante a travessia. Ao deixar o espaço institucional e assumir a estrada como palco, o deputado converte o caminho em narrativa, o esforço em símbolo e o destino em objetivo coletivo.

Independentemente de concordâncias ou discordâncias sobre a causa defendida, a ação evidencia uma leitura sofisticada do marketing político contemporâneo: em um ambiente saturado de discursos, é a construção contínua de sentido, e não o ato isolado, que consolida relevância, engajamento e impacto comunicacional.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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