ASSINE
Autor(a) Convidado(a)
É professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Doutor e pesquisador na área de educação das relações étnico-raciais

13 de maio: eles buliram, nós vamos abolir!

Em um passado recente, o sentido do 13 de maio era de natureza festiva, em alusão à Abolição da Escravatura. Hoje,  como resultado do processo de luta coletiva, uma das conquistas do movimento negro foi o rompimento com esse caráter “antiquado”

Publicado em 13/05/2022 às 02h00
Sou negro
Monique Rocha com o compositor Jean Carlos no clipe de "Sou Negro". Crédito: Thais Gobbo

Peço licença para parafrasear o título “Eles buliram, nós vamos abolir” de manuscrito produzido pelo Movimento Negro Unificado em 13 de maio de 1986. Faço essa referência para situar que, ao longo de sua existência contemporânea, o movimento negro brasileiro tem se posicionado de maneira corajosa e comprometida em realizar uma necessária reescrita da história e da memória hegemônica brasileira. História e memória com forte tradição colonialista, escravocrata, eurocêntrica e racista.

Em um passado recente, o sentido atribuído ao 13 de maio era de natureza festiva em alusão à Abolição da Escravatura e, hoje, após 134 anos de Assinatura da Lei Áurea, como resultado desse processo de luta coletiva, uma das conquistas contemporâneas do movimento negro foi o rompimento com aquele “antiquado” caráter atribuído. Percorrido este percurso, o treze de maio é dia de denunciar o fato de o Estado Brasileiro ainda não ter “abolido” as desigualdades que o escravismo e o racismo criminoso, respectivamente, produziram e produzem na sociedade brasileira.

Um breve registro histórico se faz necessário: há mais de três décadas, no dia 13 de maio de 1988, o movimento negro capixaba, por meio dos Grupos Gangazumba e CECUN - Centro de Estudos da Cultura Negra, reagiu às comemorações governamentais de caráter festivo em alusão ao Centenário da Abolição, realizando um conjunto de ações para denunciar a real situação do negro brasileiro e protestar contra o descaso a que os negros foram relegados nos últimos cem anos.

Uma das ações foi a ‘Marcha Contra a Discriminação Racial’, realizada da antiga Casa da Cultura até a Praça Oito (Centro de Vitória – ES), reunindo cerca de 500 manifestantes, no dia 13 de maio de 1988. Nesse dia, o movimento negro capixaba reafirmou, publicamente, sua recusa em comemorar a “Abolição da Escravidão”, proclamando o dia 13 de maio como “Dia Nacional de Denúncia Contra a Discriminação Racial”.

Entretanto, a crítica ao 13 de maio e à “falsa abolição” não foi um ato formalizado apenas em 1988. Registramos essa crítica no Espírito Santo pelo menos desde 1979, conforme a matéria “13 de maio: dia da falsa abolição”, publicada no Jornal Posição, em maio de 1979. Na matéria, o Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial (MNUCDR-ES) conclamou a necessidade de a população negra negar o 13 de maio e passar a comemorar o dia 20 de novembro, em memória ao líder Zumbi de Palmares.

Portanto, já naquela época, o movimento negro capixaba negou o 13 de maio “como um dia de festa e libertação, porque nesse dia foi assinada uma lei que apenas ficou no papel, encobrindo uma situação de dominação que até hoje nos é imposta” (transcrito do original).

Nesse lastro histórico de quase meio século, recebemos com alegria e sentimento de pertencimento o lançamento do videoclipe do samba ‘Sou Negro’. O samba, interpretado por Monique Rocha e pelo compositor Jean Carlos, aborda a luta, o racismo, a escravidão, a autoestima, o amor e a beleza do povo preto. A mensagem do videoclipe é assertiva e – ao retratar um casal da realeza africana em plena favela brasileira - nos faz refletir o processo histórico de exploração e empobrecimento da população negra no Brasil.

Tal como nos suscita esse novo samba de Monique Rocha, nós, negras e negros, somos filhos “descendentes de Zumbi” e, na condição de filhos e filhas descendentes de Zumbi de Palmares, neste dia 13 de maio, nos reportamos à nossa ancestralidade para contestar a falsa abolição brasileira. Como é dito no samba: “Mesmo no dia de hoje essa escravidão ainda não acabou”.

O videoclipe ‘Sou Negro’ nos inspira ao reencontro com a mãe África e ao necessário fortalecimento do pertencimento coletivo na diáspora brasileira. Trata-se de um trabalho que, por meio de imagens e sons, entrelaça alguns dos significados e sentidos encontrados nas múltiplas formas e processos de (re)existência negra no Brasil. Com encantamento e força ancestral, o vídeo reverencia todas aquelas e todos aqueles que nos antecederam desde o antigo Quilombo de Palmares.

Convidamos para que assistam ao videoclipe ‘Sou Negro’ e, em especial, conclamamos para que – sob a inspiração do samba ‘Sou Negro’ - se somem ao movimento negro brasileiro na luta por reparações aos descendentes de africanos escravizados neste território racista que nos ensinaram chamar de Brasil. Eles buliram, nós vamos abolir!

Reparações, já!

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

A Gazeta integra o

Saiba mais
Racismo Consciência Negra

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.