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Choque na Assembleia

Ação de Gandini contra Musso passa por eleição contra Amaro em 2020

Pré-candidato a prefeito de Vitória com apoio de Luciano Rezende, deputado do Cidadania pedirá anulação de reeleição de Erick Musso, aliado de Amaro Neto, por sua vez potencial adversário de Gandini na Capital

Publicado em 30 de Novembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

30 nov 2019 às 04:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Gandini fecha com Luciano; Erick, com Amaro. Os dois deputados estaduais podem começar a colidir na Assembleia Crédito: Amarildo

O deputado estadual Fabrício Gandini (Cidadania) vai mesmo ingressar na Justiça com um mandado de segurança, nesta segunda-feira (2), pedindo a suspensão da eleição relâmpago da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa, convocada pelo presidente Erick Musso (Republicanos) na última quarta-feira (27) e realizada naquela mesma manhã, pegando a muitos deputados de surpresa. Mais importante que a ação em si é o pano de fundo político-eleitoral dessa reação de Gandini. Seu posicionamento tem tudo a ver com as eleições municipais de 2020 – especificamente, com a corrida rumo à Prefeitura de Vitória. Até porque a antecipação da eleição da Mesa, na qual Erick Musso garantiu sua permanência no comando da Casa até 2023, também passa, diretamente, pelas próximas eleições municipais. Explico.

Como não é segredo para ninguém, Gandini é pré-candidato declarado a prefeito de Vitória em 2020, com o apoio igualmente declarado do prefeito Luciano Rezende, cacique estadual do Cidadania e seu mentor político desde que o atual deputado foi assessor parlamentar de Luciano na Câmara de Vitória. E Erick Musso, o que tem a ver com isso? Também é pré-candidato em Vitória? De modo algum. Aliás, Erick não disputará mandato algum em 2020. Entretanto, o presidente da Assembleia tem como principal aliado o deputado federal Amaro Neto, também do Republicanos. E Amaro, sim, pode ser postulante a prefeito de Vitória em 2020 e/ou candidato ao governo do Estado em 2022, contra Renato Casagrande (PSB) ou quem quer que seja, então, o candidato da situação.

Assim, tanto para Erick Musso como para Amaro e para o grupo político de ambos, é fundamental a permanência do primeiro na posição de presidente do Poder Legislativo estadual, pelo menos até o fim de 2022 – algo que, de fato, Erick conseguiu garantir na última quarta-feira. Guardando esse posto estratégico, o grupo de Erick preserva um enorme poder de pressão e de negociação na interface com o governo Casagrande. O presidente da Assembleia, afinal, é quem define a pauta de votações e o ritmo da tramitação de todos os projetos de lei, inclusive os que são prioritários para o Poder Executivo. Com Erick na presidência da Casa até o início de 2023, Casagrande terá que negociar diretamente com ele até o fim do seu atual governo. Isso pode significar ter que fazer algumas concessões ao grupo de Erick e Amaro nas eleições de 2020 e até de 2022.

A prova mais contundente do que afirmamos acima é a informação publicada aqui nesta quinta-feira (28) e não contestada por ninguém do grupo de Erick: no último dia 19, Casagrande recebeu Erick, Amaro e Roberto Carneiro, diretor-geral da Assembleia e presidente estadual do Republicanos (ex-PRB). Na reunião, eles selaram um acordo: Casagrande não mobilizaria sua base na Assembleia para derrubar a PEC de Erick que abriu caminho para sua reeleição antecipada; em troca, Erick garantia uma tramitação bem célere da reforma da Previdência do governador na Casa. Assim foi feito.

O que Casagrande não esperava é que Erick fosse realizar a eleição para a próxima Mesa de modo tão prematuro – dois dias após a aprovação da PEC e sem tempo político hábil para o Palácio Anchieta organizar uma contraofensiva. Na sessão da última quarta, pego de calças curtas, o governo ainda tentou esboçar uma reação, que se mostrou pífia, à chapa encabeçada por Erick. Essa reação passou por Gandini, que, ao lado do deputado Dary Pagung (PSB), chegou a ensaiar a montagem de uma chapa. É aí que entra o deputado do Cidadania.

Extremamente governista, Gandini agora vai à Justiça na tentativa de suspender a reeleição de Erick, alegando que a atual Mesa não avisou a todos os deputados com antecedência sobre o processo eleitoral e que ele teve cerceado o seu direito de preparar e lançar uma chapa em tempo razoável. Mas tem mais. Ex-presidente da Câmara de Vitória (2013-2014) e ex-secretário de Gestão de Vitória na segunda administração de Luciano (2017-2018) , Gandini, até agora, tem exercido um mandato discreto na Assembleia. Com o ano eleitoral batendo à porta, o deputado pode estar começando a se movimentar nessa direção por dois motivos:

Moral junto ao Palácio Anchieta

Estabelecer-se, de agora em diante e a partir dessa ação judicial, como um contraponto a Erick Musso (leia-se Amaro Neto) e à atual gestão da Assembleia, mais ou menos no estilo do que o deputado Sergio Majeski, do PSB de Casagrande, já faz desde o mandato passado (lembrando que Majeski é outro potencial adversário de Gandini na eleição a prefeito de Vitória): uma voz que, no plenário, denuncia as “velhas práticas políticas” da atual Mesa Diretora etc.
Consolidar-se como “oficial da tropa de choque” de Renato Casagrande no plenário – a qual, convenhamos, anda carente de representantes firmes ultimamente, vide os três deputados do próprio PSB: Dary é adversário visceral de Erick, mas usa pouco e mal a tribuna; Majeski sabe usar a tribuna, mas vira e mexe o faz para criticar o governo de seu próprio partido; Freitas mostrou volatilidade e, após criticar a PEC da Reeleição de Erick, acabou compondo com ele e entrando na chapa eleita, como 3º secretário da Mesa a partir de 2021.

Assim, ajudando o governo de modo mais assertivo no plenário, Gandini também ajudará a si mesmo, ganhando pontos na relação com o Palácio Anchieta, até para não perder o PSB – que no momento acena com candidatura própria em Vitória – na aliança com o Cidadania dele mesmo e de Luciano Rezende na eleição do ano que vem na Capital.

GANDINI: “GRATZ NÃO COMEÇOU DO DIA PARA A NOITE”

Questionamos Gandini se ele partirá mesmo para a oposição interna a Erick Musso. A resposta não deixa dúvida.

“Até então, ele [Erick] não tinha me dado motivo para acioná-lo na Justiça nem para fazer uma oposição interna a ele, apesar de ele já ter dado antes alguns sinais, como a mudança no Regimento Interno [aprovada em fevereiro] que deu superpoderes ao presidente. Dessa vez foi um retrocesso tão absurdo que resolvi não me calar. Nem associação de bairro faz eleição como a da Assembleia foi feita. Qualquer associação comunitária abre um prazo, ainda que mínimo, ainda seja na véspera, para registro de chapas.”

O deputado do Cidadania cita até o ex-presidente da Casa José Carlos Gratz.

“A Era Gratz não começou do dia para a noite. Começou com ações em que a Assembleia foi colocando o Executivo de joelhos. Quando o Fórum Reage Espírito Santo foi fundado, já havia muitos sinais. Então fiquei preocupado com uma eleição feita dessa forma. Estamos começando a viver a possibilidade de retrocesso novamente.”

"Essa eleição é um retrocesso, mas o que vem pela frente pode ser pior ainda. É um alerta grave de volta ao passado, por isso estou me posicionando veementemente contra. É preciso reagir agora. Se a sociedade não reagir agora, as consequências mais para a frente podem ser piores."
Fabrício Gandini (Cidadania) - Deputado estadual

Gratz presidiu a Assembleia por seis anos, de 1997 até o início de 2003.

LUCIANO: “JÁ VIMOS ESSE FILME”

Outra prova inequívoca de que a (re)ação de Gandini tem tudo a ver com as eleições municipais de 2020 foi a manifestação do prefeito Luciano Rezende, pelo Twitter, na manhã desta sexta-feira (29). Em alusão à notícia de que Gandini buscaria a Justiça para anular a eleição da Mesa, o prefeito publicou mensagem em sua conta usando hashtags como (por extenso) “defender o ES de ameças” e “já vimos esse filme”.

Embora sem citar nomes, o prefeito, há meses, vem fazendo menções a “ameaças” políticas à cidade de Vitória, tanto em discursos como em entrevistas. Por todo o contexto explicado acima, a publicação, desta vez, só pode ter como alvo indireto a possível candidatura de Amaro Neto (derrotado por Luciano em 2016) a prefeito da Capital novamente em 2020, contra Gandini, e/ou a governador em 2022, contra o candidato do Palácio Anchieta.

SE GANHAR, NÃO ASSUME

Só um último detalhe: como já registramos aqui, dos sete membros da chapa de Erick eleitos para a Mesa do biênio 2021-2023, quatro podem nem sequer chegar a tomar posse, caso sejam eleitos prefeitos, em 2020, dos respectivos municípios onde pretendem concorrer. Mas o mesmo vale para o próprio Gandini. É um arremesso do meio da quadra, mas não deixa de ser possível: supondo que a Justiça anule, como ele quer, a eleição da última quarta-feira, que seja realizada outra, que Gandini seja eleito presidente da Assembleia a partir de 2021 e que, antes, vença a eleição em Vitória, o cargo de presidente da Assembleia ficará vago.

São as loucuras proporcionadas por uma eleição tão antecipada, em mais de 400 dias da posse da data da Mesa ora eleita.

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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