Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

  • Início
  • A Inquisição japonesa definiu a fuga do brasileiro Carlos Ghosn
Justiça internacional

A Inquisição japonesa definiu a fuga do brasileiro Carlos Ghosn

Os promotores no Japão têm muito mais poderes do que os ocidentais, “buscam um comportamento corretivo do suspeito e tentam obter uma expressão de remorso dos acusados”

Publicado em 19 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

19 jan 2020 às 04:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff
Empresário brasileiro Carlos Ghosn Crédito: Divulgação

A fuga do empresário Carlos Ghosn para o Líbano chamou a atenção para o sistema processual japonês. Alguns dizem que o Ministério Público, lá, tem poderes excessivos, podendo prender alguém sem sequer indiciamento, manipular arbitrariamente as acusações e manter os presos sem comunicação sequer com advogados. Esse sistema utilizaria a prisão como um substituto da tortura, sendo raríssimo que o juiz não acolha tudo o que é proposto pelos promotores.

Para o professor Nobu Ishizuka, da Universidade Columbia (EUA), os promotores no Japão têm muito mais poderes do que os ocidentais, “buscam um comportamento corretivo do suspeito e tentam obter uma expressão de remorso dos acusados”. De fato, o ex-promotor japonês Nobuo Gohara reconhece que "um suspeito que admite um crime pode até ser libertado da prisão [...] Mas se uma pessoa se recusa a admitir o crime, a Promotoria vai se opor fortemente a sua libertação, até que obtenha uma confissão.”

Segundo Masato Ninomiya, que foi meu professor no doutorado, "quando o condenado é recolhido na penitenciária, passa a sofrer uma série de restrições à liberdade. Se ele está recolhido na penitenciária é porque ele foi condenado. Não há presunção de inocência, neste caso".

As autoridades japonesas garantem que Ghosn teria um julgamento justo e afirmam que o baixo índice de absolvições decorre do extremo cuidado em somente oferecer acusações com prova abundante. Não tenho conhecimento suficiente para concordar ou discordar, mas isso aponta claramente para a ideia de que o acusador deve ser, ao mesmo tempo, o defensor e o julgador, funcionando o Judiciário quase que como instância homologatória.

Por outro lado, a preocupação em obter não apenas a confissão, mas o arrependimento do acusado é outra clara semelhança com o procedimento da Inquisição. Contudo, é inegável que os índices de violência e corrupção japoneses são irrisórios e até os Yakuza andam desarmados, ao passo que o Judiciário e o Ministério Público do Japão, proporcionalmente à sua população, são muito menores que os nossos. Aliás, a taxa de encarceramento, lá, também é umas cinco vezes menor. Por mais rigoroso que seja, o sistema deles também é muito menos punitivo.

O que essa fuga no ensina é que cada país deve ter o seu sistema e dar aos seus cidadãos as garantias que entender cabíveis, segundo sua cultura e sua realidade. Olhar para fora é sempre bom, areja as ideias, mas não dá para simplesmente importar o que funciona bem acolá.

Henrique Herkenhoff

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Acidente na Rodovia do Sol, em Guarapari
Mulher fica ferida após carro capotar na Rodovia do Sol, em Guarapari
Lacen
Secretaria de Saúde do ES abre processo seletivo com salário de até R$ 12 mil
Imagem de destaque
Como fazendeira ajudou polícia a prender suspeitos de ataque a base militar no Reino Unido

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados