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Segurança

Houve tempo em que o formalismo era sacrificado a favor da eficiência prática

Eu teria muitas histórias, terminadas de maneira justa e, às vezes, enérgica, mas rápida e com raras prisões, recompondo o tecido social, em vez de rasgá-lo de vez

Publicado em 29 de Dezembro de 2019 às 04:00

Públicado em 

29 dez 2019 às 04:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff
Violência Crédito: Divulgação

Não é nada fácil encontrar um tema de segurança pública para tratar na época natalina: não tem pauta positiva... A solução foi voltar à minha infância em Cachoeiro, quando não havia quase nenhuma criminalidade e os riscos que corríamos eram criados pelas nossas próprias estripulias.

O delegado de polícia era o sargento PM Francelino (naquela época podia), mas para mim ele era mesmo o meu professor de Educação Física, três vezes por semana, e o católico devoto que podia ser visto na missa todos os domingos, orando em atitude tão humilde, contrita e compenetrada que não ousaríamos interromper nem para cumprimentar. O fato de saber que ele existia me passava toda a sensação de segurança de que eu podia precisar.

Certo dia, nossa empregada doméstica apareceu com sinais do que hoje chamaríamos de violência doméstica. Naquela época, era “normal”, mas o fato se repetiu e mamãe pediu a intervenção do sargento Francelino, que chamou o marido para uma conversa (naquela época podia). Não sei o que ele falou, mas o fato é que o problema se resolveu de uma vez por todas.

Eu teria muitas outras histórias como essa, terminadas de maneira justa e, às vezes, enérgica, mas rápida e com raras prisões, recompondo o tecido social, em vez de rasgá-lo de vez. Todas soariam muito estranhas hoje em dia, mas naqueles tempos o formalismo era sacrificado em favor da eficiência prática.

E tinha o subdelegado Acenor Fraga, bonachão, que nas manhãs de domingo era meu treinador no time da AABB e quase sempre me escalava para o time de camisa azul: obviamente não entendia nada de futebol e não sabia reconhecer um verdadeiro talento, ou eu teria sido um profissional...

Essa, basicamente, foi a minha experiência pessoal com a violência e com a polícia até ir estudar no Rio. Não que a pobreza fosse inexistente, mas não havia esses fossos sociais e urbanos de hoje em dia. A violência da época, ainda muito concentrada no campo, vinha migrando apenas para as grandes cidades e, com ela, e a discriminação.

Em Cachoeiro, ao contrário, crianças muito mais pobres ou mais ricas que eu estudavam nas mesmas escolas. Brincávamos (e brigávamos, porque naquela época podia) juntos. Hoje, paredões visíveis e invisíveis separam as pessoas, mas não as protegem, pelo contrário.

Será que Francelino e Acenor podiam se dar ao luxo de serem amistosos com todos porque Cachoeiro estava sempre tranquila, ou era o contrário? Nada acontecia ou eu é que não me dava conta? Cachoeiro mudou ou fui eu? Não faço ideia, mas lembrar deles sempre me aquece o coração.

Henrique Herkenhoff

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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