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História

Viva a República: o golpe de 1889 não deu certo. Nenhum há de dar

Mudam os donatários, mas a capitania repete os mesmos compassos do samba, o mesmo enredo, e deixa o povo atravessado no ritmo. Mudam só as alegorias e as fantasias. Até o samba muda de nome

Publicado em 07 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

07 jan 2020 às 04:00
Paulo Bonates

Colunista

Paulo Bonates Paulo Bonates
Proclamação da República Crédito: Divulgação

Respeitável público. Paira nas vias de comunicação páginas felizes e infelizes da história brasileira, que certamente, assim como o samba, não se ensina na escola, embora alguns achem que aprenderam.

Neste exato momento, a gestão pública do país chafurda na mesma trama de todas as demais. Até meu cão de estimação, o Dorian Gray, cujo retrato encontra-se na parede da sala, sabe disso. Mudam os donatários, mas a capitania repete os mesmos compassos do samba, o mesmo enredo, e deixa o povo atravessado no ritmo. Mudam só as alegorias e as fantasias. Até o samba muda de nome.

O povaréu não participa hoje do atual desfile, como não participava dos anteriores. Somos figurantes obrigados a votar para fazer volume, e nada mais. Por isso a “eleição” é obrigatória, claro. Pensar, nem pensar. A palavra “obrigatória” acaba com todos os pífios vestígios de democracia. Os grupos travestidos de partidos e siglas, os mais ridículos possíveis, saem às ruas, quando saem, para gritar o nome dos escolhidos caciques sem flecha, geralmente sem vergonha, dançando da mesma forma para fazer a mesma coisa. Isto é, coisa alguma.

Atualmente, uns gritam pró-Lula, outros pró-Bolsonaro, por exemplo (essa repetição é insuportável). Defendendo ou apoiando alguma ideia, lutando por uma definição política? Isso jamais.

Minha senhora, as hordas de fantasiados estão a serviço de seus proprietários, e é o nome deles que está em pauta. Assunto, tema, protesto, isso não tem direção.

Tem violência cega, caótica, bêbada. A polícia da vez não sabe literalmente o que fazer. Impedir o quê, onde? O serviço de inteligência não é capaz de identificar o fluxo das manifestações, nem a direção, nem o sentido. As greves que historicamente levavam à negociação, fazem o samba “atravessar”.

Veja no transporte. Sem saber se a ordem partiu de motoristas ou de seus patrões o povo é agredido com o bloqueio do já deficiente respeito ao público. Não custa lembrar que para favorecer os países ricos foram-se a navegação costeira, os trens e as óbvias estradas de ferro. A repressão à roubalheira individual em todos os níveis não dá em nada de fato. Logo aparece uma lei para anular ou adiar o julgamento da “Coisa Podre”. E começa tudo de novo. E o furto não é devolvido, volatiliza. Não tem problema, aumenta-se o saque à já empobrecida nação tupiniquim, e apelida de reforma. Ninguém, absolutamente ninguém, principalmente os autores da peça, compreendem o que significa.

Não vou cansá-los recitando o óbvio. Vamos tomar um refresco de cupuaçu, uma delícia, enquanto lhe conto uma piada.

Na Biblioteca Nacional, que fica ali na Cinelândia, no Rio, leia o Diário de Pedro II. Depois vá ao Museu Imperial de Petrópolis, Fundação Getúlio Vargas, Museu Nacional, e a Bibliografia de José Murilo de Carvalho onde guardam em suas preciosas páginas algumas informações fundamentais. Quem quiser que vá lá olhar.

Veja e envergonhe-se ao constatar que o projeto de governo de D. Pedro II era extremamente saudável e inteligente. Até o primeiro o golpe de Estado aplicado pelo Marechal Deodoro da Fonseca.

Paulo Bonates

Paulo Bonates Paulo Bonates

É médico, psiquiatra, psicanalista, escritor, jornalista e professor da Universidade Federal do Espírito Santo. E derradeiro torcedor do América do Rio.

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