A ausência de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no debate presidencial da TV Globo desta quinta-feira (1/10) muda a dinâmica do confronto e coloca Flávio Bolsonaro (PL) em uma posição diferente da que teria com o petista no palco.
Sem Lula, o senador poderá direcionar parte de suas críticas ao principal adversário sem precisar responder a um confronto direto com ele, mas também se torna um alvo mais evidente para os demais candidatos, na avaliação de especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.
A composição do debate também deve favorecer Flávio, segundo especialistas. Sem a participação de Renan Santos (Missão) — que não foi convidado pela Globo por não atender aos critérios eleitorais estabelecidos pela emissora — o senador deverá enfrentar um ambiente menos hostil, com candidatos menos confrontadores.
Renan entrou nesta quarta-feira (30/9) com um pedido no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para tentar garantir sua presença no debate.
"A ausência do Renan ajuda o Flávio, porque o Renan tem sido o crítico mais ácido do Flávio no chamado campo da direita. Inclusive com um nível de agressividade muito grande, então talvez isso tenha até, de certa forma, entrado no cálculo do Flávio para ir ao debate", afirma Marco Antonio Teixeira, professor de Ciência Política da FGV São Paulo.
- Eleições: o que as pesquisas diziam sobre Lula x Bolsonaro no dia do debate da Globo em 2022 e 2018 — e o que dizem em 2026
- Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil: qual a situação da disputa às vésperas do 1º turno?
- ESPECIAL da BBC mostra as propostas de todos os candidatos em 8 áreas
- Debate na Globo: que horas começa, quais as regras e o que esperar?
- Da pergunta sobre Deus a FHC à cadeirada de Datena: 5 debates que marcaram as eleições brasileiras
O cientista político Rodrigo Prando vê o debate como uma oportunidade para Flávio nesta reta final da campanha, em um cenário de disputa aperta, conforme mostram as pesquisas.
Segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil, a distância entre Lula e Flávio Bolsonaro diminuiu no primeiro turno, e Flávio aparece à frente de Lula em um eventual segundo turno, marcado para o dia 25 de outubro.
Mas, se Flávio tiver um desempenho ruim no debate, essa exposição pode acabar tendo efeito contrário.
"Quem tenderia a se beneficiar com a ausência de Lula é o Flávio Bolsonaro. Mas, às vezes, o candidato que acredita que vai ter um benefício, pode acabar se prejudicando se não conseguir responder ou se enrolar no debate", diz Prando.
Debate pode mudar a eleição?
A questão, segundo especialistas, é quanto essa nova dinâmica pode efetivamente alterar a disputa.
A três dias do primeiro turno, Prando avalia que a capacidade de o debate mudar o quadro eleitoral é limitada, já que a maior parte dos eleitores já cristalizou sua escolha.
"As pesquisas mostram que praticamente 87% dos eleitores já cristalizaram o seu voto e não devem mudar de jeito nenhum. O que significa que provavelmente o debate não vai modificar essa escolha já cristalizada", destaca.
A situação, segundo Prando, é bem diferente daquela do primeiro debate do primeiro turno, realizado em agosto pela Band.
Naquele momento, os eleitores ainda estavam mais expostos às diferentes candidaturas e a ausência de Lula e de Flávio abriu espaço para os demais concorrentes apresentarem suas propostas e se tornarem mais conhecidos.
O caso de Augusto Cury (Avante) é um exemplo. O escritor foi um dos candidatos que mais ganharam visibilidade naquele momento e registrou crescimento nas pesquisas, embora esse movimento não tenha se sustentado.
"Naquele debate, Cury se tornou mais conhecido e incorporou uma ideia de uma terceira via se afastando do lulopetismo e do bolsonarismo. Mas a gente viu que isso foi um balão de ensaio", afirma.
"Não vejo nada mudando em relação a Caiado, Zema, Cury ou Renan", acrescenta.
Análise semelhante faz Cila Schulman, CEO do Ideia e especialista em estratégia eleitoral. Ela ressalva que ainda há eleitores indecisos, mas avalia que eles tendem a se distribuir principalmente entre Lula e Flávio, que concentram as maiores intenções de voto nas pesquisas.
Para ela, seria necessário um acontecimento "extraordinário" para que o debate produzisse uma mudança significativa na disputa.
"Eu não vejo, a não ser que aconteça uma hecatombe no debate, alguma coisa muito fora do script, o debate mudando o quadro que a gente tem", afirma.
Cálculo de exposição é diferente nas campanhas
Para a professora de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Graziella Testa, o debate perde parte de sua relevância sem a presença de Lula, porque impede que os eleitores comparem propostas dos dois candidatos que hoje concentram as maiores intenções de voto.
Isso não significa, contudo, que o confronto seja irrelevante. A poucos dias da eleição, Testa avalia que, embora o espaço para conquistar novos eleitores seja menor, um episódio de grande repercussão ainda pode produzir efeitos na reta final da campanha.
"Eu acho que tem uma avaliação dos dois lados de que uma coisa pequena pode virar decisiva nesse momento. A diferença é a avaliação a respeito do custo-benefício da exposição", diz.
Segundo a professora, a campanha de Flávio parece avaliar que os possíveis ganhos de participar do debate superam o risco de um desempenho ruim — um cálculo diferente do feito pela campanha de Lula.
"O que é surpreendente, inclusive pensando em termos do histórico de Flávio em debates, que também não é dos mais tranquilos do ponto de vista da campanha", afirma.
A repercussão nas redes sociais também pesa nesse cálculo. Trechos de falas, gafes e momentos de confronto podem ganhar alcance depois da transmissão e prolongar os efeitos do debate.
"Hoje, muitos candidatos vão para o debate fazer cortes, e não para responder à pergunta. Fica cada um falando para o seu eleitorado, para a sua rede social, mas é uma realidade", afirma Schulman.
"E se você pega uma gafe de um candidato, isso é ouro para uma campanha. Para o eleitor, isso tem um valor", acrescenta.
Esse é um dos fatores considerados pela campanha de Lula, na avaliação de Testa, ao decidir não comparecer ao debate.
"Me parece que o cálculo de Lula entende que tem mais a perder do que a ganhar nesse momento e isso tem muito a ver com o que se fala após o debate. De duas eleições para cá, importa mais os cortes, né, os pequenos enxertos do que foi dito do que o que, de fato, foi debatido de forma mais profunda."
Quem participa do debate
Estão previstas as participações dos candidatos Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo).
Zema, ex-governador de Minas Gerais, foi incluído posteriormente pela Globo após o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Nunes Marques, determinar a participação dos candidatos majoritários do Novo no debate presidencial e nos confrontos entre candidatos a governador.
A decisão atendeu a um pedido do partido, que argumentou que deveriam ser considerados os cinco integrantes que atualmente compõem sua bancada na Câmara, e não apenas os três deputados eleitos em 2022.
Nesta quarta-feira (30/9), o partido de Renan Santos (Missão) também entrou com um pedido junto ao TSE para poder participar do confronto.
O Missão argumenta que "a emissora criou legítima expectativa de participação ao convidar Renan Santos, desde março deste ano, para o conjunto de atividades ligadas à cobertura da eleição presidencial — debates, sabatinas e entrevistas."