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Regras de isolamento social devem ser flexibilizadas?

Enquanto a Organização Mundial da Saúde preconiza a restrição à circulação de pessoas, presidente Jair Bolsonaro tem defendido a retomada das atividades econômicas

Publicado em 19/04/2020 às 06h00
Atualizado em 19/04/2020 às 06h00
As medidas de isolamento durante a pandemia do novo coronavírus têm dividido a opinião de cientistas
Medidas de isolamento durante a pandemia do novo coronavírus têm dividido opiniões. Crédito: Pixabay

Quem vai salvar a economia?

Eduardo Sarlo
É advogado empresarial e conselheiro da OAB-ES

Quanto vale uma vida? Não tem preço. A minha, a sua, a de um filho, a de nossos pais, dos nossos amigos. Não é possível mensurar. Mas quanto vale parar vidas inteiras para combater uma pandemia?

Vejamos alguns dados: a Federação do Comércio do Espírito Santo estima que as demissões podem atingir 30 mil trabalhadores. De um lado médicos cumprem sua missão e defendem as regras de isolamento. De outro, pelo menos 10 Estados já afrouxaram as regras de quarentena e o ministro Paulo Guedes admite que o PIB poderá recuar em até 4%. O Banco Mundial vai além: prevê a maior retração na economia brasileira desde 1962.

A equação não é fácil: salvar vidas mantendo a quarentena ou salvar vidas de milhares de trabalhadores que dependem de suas atividades para tirar seu sustento.

Acredito que, ao seguir as regras de isolamento por aproximadamente um mês, a população deu sua parcela de contribuição para que a curva da pandemia não aumentasse ainda mais. Foi dado o tempo pedido para que governos se organizassem e o sistema de saúde se preparasse para receber os pacientes infectados por esse vírus que desafia a ciência.

Mas e agora? Devemos todos resgatar nossos principais valores e, cada um como puder, exercitar a solidariedade. Mas sobreviveremos mais tempo trancados em casa?

Em uma nação extremamente carente, pode ser temerário sacrificarmos toda a economia de forma drástica. Não temos dinheiro, como os países europeus e os EUA, para suportar tamanho passivo na economia. Quem vai pagar essa conta? Se não temos dinheiro circulando, não temos tributo, não temos dinheiro para a máquina pública e, se a máquina pública não tem dinheiro, como vai ficar a saúde pública?

Temos que adotar medidas, sim, para reduzir contágio, medidas cautelares para evitar transmissão, fazer testes em massa e isolar os contaminados. Entretanto, parar a economia de um país que não tem condições sequer de controlar suas outras mazelas pode ser temerário.

Entretanto, parar a economia de um país que não tem condições sequer de controlar suas outras mazelas pode ser temerário. Acredito que podemos, de forma gradativa e responsável, inclusive com novos hábitos, deixar a “economia viver”, deixar as pessoas trabalharem, manterem seus empregos.Se não pensarmos na flexibilização do isolamento, o setor produtivo do país corre o risco de “falecer”.

Uma questão humanitária

Alexandre Rodrigues da Silva
É médico infectologista

No início de 2020, enquanto celebrávamos mais um ano, com tantos sonhos e projetos, do outro lado do mundo eram relatados os primeiros casos de uma pneumonia desconhecida. Esta se tornaria a pior pandemia de nossa história moderna, sendo ocasionada por um novo coronavírus, que se espalhou rapidamente, em pouco tempo atingiu milhões de pessoas e já registra mais de 140 mil mortes em todo o mundo.

Para conter uma disseminação ainda mais rápida desse vírus, observamos a adoção de medidas que impedem a circulação dos cidadãos, como o isolamento social. É nesta condição que nos encontramos no último mês, na qual tivemos que nos adaptar a ficar em casa e conviver com o fechamento de comércio, escolas, academias, shoppings, igrejas...

Não é fácil estar confinado, principalmente diante da incerteza quanto à manutenção do emprego e da renda. O próprio FMI reconhece que o isolamento social contribui para a grave crise econômica mundial. Apesar disso, orienta como ação primordial a manutenção dessa medida de contenção e suporte sos sistemas de saúde: “Como a crise decorre de uma pandemia, derrotar o vírus e proteger a saúde humana é um imperativo para a recuperação econômica”.

Reino Unido e Suécia tentaram proteger somente grupos específicos, considerados de maior risco. Tal medida falhou. Muitas pessoas adoeceram ao mesmo tempo, disputando os mesmos leitos e respiradores nos hospitais. A experiência da China, de países europeus e dos Estados Unidos demonstra que o novo coronavírus sobrecarrega o sistema de saúde, mesmo em países com mais recursos.

O Espírito Santo tem mais de 850 casos confirmados de Covid-19, com taxa de ocupação dos leitos de UTI nos hospitais de referência que passa de 60%. Se houver aumento de casos graves mais rápido do que a disponibilização de novos leitos e equipamentos, poderemos enfrentar momentos mais difíceis.

Manter o isolamento social contribui com um crescimento mais controlado dos casos, como tem sido verificado no Estado, permitindo a estruturação progressiva do sistema de saúde. Flexibilizar o isolamento só será possível com o conhecimento do estado sorológico de uma maior parcela da população. Isolamento social, mais do que uma questão de saúde pública, trata-se de uma questão humanitária.

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