ASSINE

Qual deve ser o destino do Centro Cultural Carmélia?

União solicitou retomada do imóvel que estava cedido à Prefeitura de Vitória, mas sem uso há alguns anos. Município e Estado lutam para manter a vocação cultural

Publicado em 16/08/2020 às 06h00
Atualizado em 16/08/2020 às 06h00
Centro Cultural Carmélia Maria de Souza vai abrigar os armazéns da Conab no lugar dos galpões do IBC
Centro Cultural Carmélia Maria de Souza, no bairro Mário Cypreste, em Vitória. Crédito: Vitor Jubini

Esforço e diálogo para manter tradição

Renzo Nagem
É diretor-presidente da Companhia de Desenvolvimento, Turismo e Inovação de Vitória (CDTIV/PMV)

O Centro Cultural Carmélia Maria de Souza, em Mario Cypreste, foi inaugurado em 1986. Por muitos anos, serviu de palco para diversas apresentações culturais de artistas locais e nacionais, com a realização de shows, peças de teatro, festivais de cinema e exposições, exercendo forte influência na formação de talentos da cena cultural capixaba. Situado no Portal Sul do município, o prédio pertence à Superintendência de Patrimônio da União (SPU) e, desde 2010, estava cedido para a Prefeitura de Vitória e o Governo do Estado.

A retomada do centro cultural por parte da União para a estocagem de café é um erro. A região tem uma vocação cultural e náutica pulsante com projetos bem claros e o café não é um deles. A Prefeitura tem por obrigação defender o interesse dos munícipes e essa defesa se dá por meio de ações efetivas e do diálogo com os diversos setores envolvidos.

O esforço do município deve culminar com a garantia de que o espaço seja mantido para a realização de atividades de lazer, artísticas, culturais e gastronômicas, considerando a vocação econômica da região e seguindo as diretrizes de preservação do patrimônio histórico-cultural da cidade.

Em 2015 o município elaborou o projeto arquitetônico de restauro que envolve a recuperação de toda estrutura, mantendo a função principal do prédio voltado para a área cultural e o restante com parceiros, inclusive o governo do Estado com a TVE.

Para execução da obra, a administração vem buscando alternativas de modelo de gestão capazes de atrair a iniciativa privada, através de uma empresa ou por meio de instituição sem fins lucrativos. 

Em 2019, a Prefeitura requisitou o teatro para construção da Cidade do Samba na forma de parceria.

Vitória é uma cidade com vocação para a economia criativa, tecnologia, atividades culturais, humanas e turísticas. Para reforçar essa vocação, os imóveis públicos precisam convergir para tal propósito. No caso deste centro cultural, o município depende de uma cessão do imóvel com as cláusulas necessárias para a implementação de um modelo moderno, assim como já temos para os quiosques da Praia de Camburi e da Curva da Jurema.

O diálogo permanente é o único caminho para fazer chegar à SPU os anseios e as demandas de todas as pessoas e instituições que orbitam a atmosfera cultural do Centro Cultural, para que, assim, no curto prazo, possamos ter de volta um Carmélia pulsante.

Retomada do imóvel era nosso dever

Marcio Furtado
É superintendente da Secretaria de Patrimônio da União no Espírito Santo (SPU-ES)

A matemática social, termo que gosto de usar de forma positiva, permeia as minhas decisões por dois motivos: para não deixar ninguém para trás e ser sempre eficiente no alcance das políticas públicas.

Talvez não seja de conhecimento do leitor que a Superintendência do Patrimônio da União (SPU) é um órgão do Ministério da Economia responsável pela cuidadosa gestão dos imóveis federais no ES. Talvez também não seja de amplo conhecimento que 20% de toda verba arrecada pela SPU no município de Vitória é repassada à prefeitura anualmente. Dinheiro esse que vai para os cofres do município “sem carimbo”, ou seja, a prefeitura pode utilizá-lo para qualquer finalidade. Desde uma reforma em um imóvel até a contratação de servidores em uma determinada secretaria.

Desde 2010 a SPU-ES repassou ao município de Vitória aproximadamente R$ 20 milhões para utilização para quaisquer fins. Mesmo ano da entrega do Carmélia à gestão municipal.

O Teatro Nathalia Timberg, no Rio de Janeiro, foi criado por Wolf Maya com seus próprios recursos. Custou-lhe R$ 15 milhões. Nele estão duas lindas, modernas e excêntricas salas, uma com capacidade para 400 espectadores e outra para 60. Foi definido por ele como “a realização de um sonho maluco”. A arte requer sonhadores malucos, sim!

Dava para termos um Carmélia desse nível no Centro de Vitória somente com as verbas repassadas pela SPU-ES ao município desde a entrega do Teatro e sobraria muito dinheiro para patrocinar e fomentar centenas de espetáculos resgatando toda a cultura capixaba.

Quando assumi a SPU-ES em junho/19 e fui conhecer o Teatro Carmélia, o encontrei em um estado que qualquer artista que o visse cairia aos prantos da desilusão. Parecia que Plutão entrou em conjunção com Marte nos primeiros graus de Peixes: destruição total, cenário de guerra. Não havia sequer luz.

Realizei diversas reuniões com o município sobre sua revitalização: não houve interesse. A destinação para abrigar a “Cidade do Samba” também não era juridicamente possível. A União não permite cessão gratuita para esse tipo de entidade privada, ainda que sem fins lucrativos.

Não havendo interesse municipal na sua revitalização, a SPU optou pela retomada do imóvel para lhe dedicar a outros objetivos. Não era nosso interesse, era nosso dever como servidor da nação.

Se você notou alguma informação incorreta em nosso conteúdo, clique no botão e nos avise, para que possamos corrigi-la o mais rápido possível

Para melhorar a sua navegação, A Gazeta utiliza cookies e tecnologias semelhantes como explicado em nossa Politica de Privacidade. Ao continuar navegando, você concorda com tais condições.

Bem-vindo

A Gazeta deseja enviar alertas sobre as principais notícias do Espírito Santo.